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6 – Junho (quinta)
Vamos à Guarda para eu orar. Aceitei o convite de um grupo de estagiários da Escola Secundária, através da Marie France que é viúva de um primo meu. Porque de caminho revejo minha irmã que não vejo há uns três anos. Como estarás tu? Vamos no carro do meu cunhado João que a toda a força nos quer levar passeio. A oratória é amanhã, ficamos hoje em Gouveia.
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A Beira de ao pé do Mar não tem nada a ver com esta outra a que eu pertenço e que está para cá das montanhas ou serranias que fazem a ossatura dorsal do meu país. Por isso lhe chamam a Beira do Interior ou (d'aquém) da Serra ou também Terra Fria. Esta é a verdadeira Beira, penso eu, a Terra Vera, que mais a Sul ainda não perdeu o nome ancestral e se entranha pela Serra de Gredos adentro – a Região de La Vera, da Veira ou Beira! Que mais faz? |
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A natureza e a Arte andam de mãos dadas. A natureza é essência; a arte é acidente. A natureza fornece a matéria; a Arte dá-lhe a forma. Uma condiciona a outra e as duas completam-se. Para compreendermos qualquer movimento artístico, por mais insignificante que nos pareça, precisamos enquadrá-lo no seu ambiente próprio. A arquitetura pesada e severa da cidade da Guarda está plenamente de acordo com a paisagem natural que a envolve.
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É de S. João um santo da minha predileta devoção. A ele e á comemoração do seu dia me ligam saudosas lembranças de meninice. Eu vejo-o ainda á cabeceira do meu leito de menino, com seu velo branco a revesti-lo, seu cordeirinho simbólico, sua cruz de canas, a pequenina mão espalmada sobre o peito imaculado, os olhos em êxtase contemplando Deus... Dante dessa estampa adorável, cópia imperfeita do enternecido original do museu de Madrid, me prosternei anos inocentes, sob a carinhosa assistência de minha mãe, á hora de dormir, persignando-me, engrolando padre-nossos e ave-marias, a cair de sono, após um dia inteiro de brincadeira, ingerindo o leite migado que eu sorvia de olhos fechados, maquinalmente como rezava...
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Em vez de fatigar os olhos na leitura, descanso-os na paisagem. Ao atravessar a Beira Interior, ao contemplar a Estrela, admiro as formas informes (se assim posso dizer) esculpidas pelo Tempo, precursor de Archipenko. Lá de vez em quando é que surge alguma coisa que lembra o focinho de um animal ou o perfil de um homem. Paisagem de princípio ou de fim do mundo, ela fará mais a felicidade de um paleontólogo do que a felicidade de um poeta.
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