Lazer e vida associativa (1) Versão para impressão

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Numa cidade fria como a Guarda, sem a mínima das comodidades hodiernas, como era possível resistir às inclemências do gelo, da neve e da chuva? Como era possível matar o tempo nessas noites longas, demasiado longas, em casas pouco aquecidas e muito pouco confortáveis como eram, por exemplo as do chamado "Centro Histórico"? Dir-se-ia que, por cá, lazer era igual a sofrimento e que vida associativa seria igual a zero.

Contudo, e muito ao contrário do que possa parecer, tinha a Guarda, por alturas dos anos quarenta e cinquenta, uma vida associativa bem mais intensa e marcante do que a que hoje tem. Não era difícil ocupar os tempos livres. A ilustrar esta afirmação, quatro exemplos bem marcantes na vida da cidade:
Depois do encerramento das repartições e dos estabelecimentos, aconteciam os habituais encontros nalgumas das casas de comer e beber que pululavam na cidade. Após o jantar, os cafés – Mondego, Monteneve e Cristal – enchiam-se de gente ávida da cavaqueira diária que, muitas vezes, era a continuação da "conversa da bica" da hora de almoço. Os três cafés enchiam-se de gente; hoje, a Guarda não tem um café digno desse nome. Os comerciantes iam até ao Grémio do Comércio, à entrada da Rua Francisco de Passos, pôr em dia a leitura dos jornais. Mais abaixo, na mesma rua, os empregados do comércio, os funcionários públicos e um ou outro comerciante não dispensavam o encontro no Centro Artístico Sande e Castro, o tão popular e hoje centenário Grémio. Os "senhores" das profissões liberais – médicos, engenheiros, advogados – comerciantes mais abastados, funcionários superiores de bancos ou quadros do Estado também tinham o seu canto de reunião no Clube Egitaniense. Também aqui se liam os jornais, se jogava o bilhar e as cartas, únicas formas de convívio nas longas e frias noites da Guarda.
Algumas senhoras saíam à noite para irem também ao Coliseu da Beira, na Rua Vasco da Gama, a fim de assistirem às sessões de cinema que aquela empresa apresentava ao público três vezes por semana – terças, quintas e domingos. Outras iam aos ensaios do Orfeão Egitaniense ou do Orfeão Egitânia, formado a partir de dissidentes do Egitaniense. A telefonia era, ainda o modo de entretenimento mais vulgar, apenas em modo média, só que comprar um aparelho de rádio não estava ao alcance de todas as bolsas. Nos finais dos anos cinquenta, apareceu a televisão. Os primeiros aparelhos foram instalados nos cafés e nas agremiações. Parecendo que não, esta novidade agitou as noites da Guarda, já que muita gente saía de casa para ir assistir aos programas mais chamativos.
Entretanto, na Guarda, e antes da "caixa que mudou o mundo", dois factos de enorme importância tinham já acontecido. Em 1949 – 29 de Julho – começou a emitir regular e diariamente a Radio Altitude (Emissor C.S.B.21, 1495 KL/", onda média) e, em 1944, começaram as aulas (Rua dos Cavaleiros) dessa enorme instituição que foi a Escola dos Gaiatos. O lazer, diria mesmo, a modorra da Guarda levaram, assim, dois abanões bem positivos.
Dissertando sobre o lazer e a vida associativa, qualquer exposição ficaria seriamente truncada sem referir alguns factos que ganharam fama e raízes na Guarda. Em primeiro lugar, os domingueiros concertos pela Banda do Regimento de Infantaria 12 no coreto que existiu no Jardim José de Lemos. A Mata Municipal – frondosa, cheia de pinheiros dos autênticos, verdadeiro pulmão da cidade – era a "praia dos pobres", daqueles que nos meses mais estivais não podiam por falta de condições económicas, ir a banhos até ao mar. Isso era coisa de gente abastada, de famílias ricas que, numa terra como a nossa, se contavam pelos dedos de uma das mãos, sem sobrarem dedos.
A Mata Municipal e o Parque, bem tratado pelas mãos do Senhor António, um saudoso ancião a fazer lembrar o velho jardineiro de A Morgadinha dos Canaviais, faziam as delícias de velhos e novos. Os baloiços montados nas árvores, os passeios pelas estradas térreas que conduziam ao Castelo, um banco de pedra aqui, outro além transformavam aquela zona num pequeno paraíso. Quem quisesse podia jogar à bola no Campo da Tourada, ali mesmo à mão de semear.

 

 


Joaquim Lopes Craveiro in Guarda formosa na primeira metade do século XX / Coord. Jaime Ferreira.