Lendas da Beira Versão para impressão

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Ribeirinha:
Assim te chamo. Afeiçoa-se-te bem este nome travesso e ternurento.
Soltou-se, por certo, do bem querer de poetas e de gentes que o repetiam, ouvindo-o de D. Sancho e consagrando-o. Com o nome se tece, também, a imagem que definimos e inventamos de ti, "Senhora suserana de muitos corações". Bela, captaste a duração de olhares, invadiste a vida pública, embora, sendo mulher, sejas largamente devedora do discurso masculino. A escrita era, então, poder de homens. Deixaram textos e ecos da tua graça, do teu fascínio... de uma presença que ousava comportar-se à revelia dos cânones definidos para o feminino. Provocadora e livre ouviste cantar Pai Soares Taveirós "...porque já morro por vós – e, ai minha senhora branca e vermelha...". Não te adorou em silêncio, ergueu a voz; e se morrer de amor era frase feita para qualquer devoção mais ou menos apaixonada, outros sinais validavam o querer muito e bem: o olhar macio, a voz aveludada, o sorriso meigo... Eras a "senhora branca e vermelha". Para o trovador. Tom de pele que se roboriza no teatro do olhar? Referência a uma brancura que o cabelo ruivo fazia sobressair? Ou o desejo de te ver, Ribeirinha, qual Branca de Neve aguardando o beijo libertador de um príncipe?
Pai Soares peca, neste poema, contra o código do amor cortês; identifica-te "... filha de D. Pai Moniz", e augura outros amores; de coração adivinho alude "... e bem vos semelha / d'aver eu por vos guarvaya": Pai Soares de Taveirós teria direito ao uso da "guarvaya", a veste de luxo apenas permitida ao rei e parentes com a tua ligação a D. Sancho I? Ou ironicamente afirmava que, para ti, para D. Maria Paes só o manto real contava? Enigmas... Mas não se enganava o trovador. O monarca encantara-se com a graça, o requebro, a sedução que semeavas. A tua história é, pois, a história do modo como transgrediste o destino que a condição de mulher havia traçado.

 

Maria Antonieta Garcia in Lendas da Beira

 

 


GARCIA, Maria Antonieta, 1945 - Lendas da Beira. Coimbra ; Castelo Branco : Alma Azul, 2003. 136, [8] p : il ; 24 cm. Contém uma dedicatória da autora para a Bibilioteca Municipal da Guarda
PT 191266/03
ISBN 972-8580-47-9 : Oferta