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Geograficamente, a província da Beira primitiva forma um todo distinto e completo. O seu terreno, compreendendo as partes de um todo bem definido, é caracterizado, no sentido Oeste-Leste, pelo maciço da Serra da Estrela, montes dos Arrassaios, das Fráguas e S. Cornélio, a ligar à Serra das Mesas (Foios), e prolongada, já em território espanhol, à Serra da Gata; a Sul, pela Serra da Gardunha, que entestando a Oeste com o maciço da Estrela, marcha paralelamente para Leste e se prolonga, pelas alturas de Penha Garcia e Monfortinho, às faldas do Jalama; e para Norte, pelas estribações da Estrela, que, ligando-se à Serra da Lapa, vão terminar em Numão junto ao Douro.
E de todo o conjunto corográfico desta região da Beira primitiva, conjugado com a natureza geológica do terreno, dividindo em parcelas diferentes, mas complementares, formam um todo harmonioso, perfeito e completo, como o exige a formação de uma província, que não é mais do que um pequeno país. Assim o seu território está todo compartimentado em terras altas, cumeadas de serras e montes, com encostas e pequenos plainos, circundadas por vales encaixados uns, alargando outros em pequenas várzeas e chãs, algumas dilatadas em campinas. E assim, nesta terra prodigiosa, se produz tudo o que é necessário à vida do homem. As culturas das terras frias, com as pastagens, os seus matos e as suas árvores, casam-se e completam-se com as produções das temporadas; com os seus gados, os seus animais domésticos, de raças típicas e próprias, e os processos e métodos de trabalho, constituem um todo tão próprio, tão característico, tão harmónico e tão completo, que em tudo de diferencia ainda hoje das Beiras adjacentes. Os vales do Mondego, do Côa, do Águeda, do Zêzere, completados com o do Douro, e descendo depois às ribeiras da Teja, de Massueime, de Cabra, de Aguiar, da Meimoa, da Vela, etc., todas são similares, completando-se e harmonizando-se perfeitamente na sua produção. E tudo isto mercê dum clima poliforme, dum meio próprio, em que o ar, a luz, todos os elementos da natureza, se casam de uma forma especial para lhe dar cunho e uma feição própria, à parte das outras regiões limítrofes. O próprio frio é característico e exclusivamente seu: nasce na Estrela, almoça em Seia, janta na Guarda e ceia em Trancoso. Mas é sobretudo etnograficamente que a Beira tem maior unidade e a distingue das regiões circunvizinhas. Nas suas terras, especialmente nas mais elevadas, vive ainda a raça autóctone mais pura, que através de todas as convulsões sociais mais tem resistido à mestiçagem. A sua maneira intrínseca de ser, a sua rudeza nativa, franca e atraente, a sua firmeza, os seus sentimentos afetivos, apegados à terra, e espiritualidade, os seus hábitos de cooperação familiar e parçaria, e os seus costumes rescendendo a patriarcais, fazem desta terra uma província única e à parte das outras Beiras. E até a forma típica e própria do aproveitamento e transformação dos produtos da terra, nas suas indústrias caseiras – que lhes dão, por pequenas áreas, todo o necessário à satisfação das necessidades duma vida simples e natural – até serem exploradas em grande, como os lanifícios, a maior e a mais completa de todo o país, lhe dão um lugar à parte, uma forma de ser inconfundível. O seu folclore, os seus divertimentos, as suas festas, as suas romarias – tendo sempre como fim a educação física e moral da mocidade, a preparação para a luta e para a defesa da terra – são mais que diferentes, são um verdadeiro contraste em relação às das regiões circunvizinhas, e que não se encontram em nenhuma outra parte da Nação. E através dos tempos, e das transformações das terras e dos povos, a Guarda, pela sua posição, foi e será sempre a capital deste país à parte, que hoje se chama ainda a autêntica Beira.

João de Almeida - A Guarda capital da Beira / João de Almeida. – Lisboa: Império, 1937
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