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Nasci na fronteira, junto à raia. Meu berço foi uma aldeia povoada de contrabandistas, encravada nas furdes do selvagem nordeste beirão. Quantas vezes, em dichotes e graçolas, certa gente importante de outros sítios afirmava ser aquilo a «terra de ninguém»?
A ideia de Portugal, assim como a aldeia de Espanha, foi para mim, para a minha geração de escola (éramos vinte e sete ganapos, vivos e buliçosos, apenas seis nos apresentámos às inspeções militares, sujeitos nessa altura a breve questionário sobre o destino dos restantes, enfim, não sabíamos, havia quem dissesse à boca cheia terem ido para França ou Aragança...), o mesmo que fora para muitas outras gerações anteriores, a de meu pai incluída, que aprendera o abc no sótão (lá na aldeia os sótãos ainda são em baixo, pois também em Espanha los sotanos são na cave e nunca na mansarda, ao contrário do que vai sendo hábito inveterado da demonímia lisboeta) do mestre-escola, muito hábil no manejo da menina de cinco olhos, do que nas regras do ofício pedagógico, muito mais interessado na ajuda da miudagem aos quefazeres das suas courelas, do que nas suas carreiras futuras, tanto assim que meu pai poderia ter seguido a ciência de boticário e ficou toda a vida e mais um dia agarrado à rabiça ao arado, atrás de um belo touro avermelhado, comprado em Monsanto, e de uma vaca amarela, machorra de ovários, possante que nem leão, da melhor junta do concelho, sem crias a renderem dez notas cada uma, mas sempre alerta para arrancar dos lamaçais da estrada os camiões do adubo, chegados por depois do Verão de São Martinho, incluindo a carripana sabe-se lá em que segunda mão do primo Arménio, morto de tísica, coitado, quando rondava os quarenta! Que era isso de Portugal? Que era isso de Espanha? De Espanha, ainda vá, que andavam por ali uns desgraçados, pedindo esmola, dormida nos palheiros e nos alpendrais, comendo os talos das silvas, tenros e frescos da Primavera que rebentava, aceitando o farelo destinado aos marranos, ou porcos (a gente lá dizia mesmo marranos), uns desgraçados que a aldeia aceitava, protegia, e ao mesmo tempo arreceava, que, dizia-se, eram vermelhos, bolcheviques, ou não sei o quê, fugidos aos fascistas, aos do barrete de borla vermelha, pouco dados a viverem com os fugitivos, porque tinham morto já não sei quem em Toledo, no alcastro de Toledo, à vista do pai, o que também cantavam os ceguiguihos, e portanto, pois havia os ceguinhos a cantar isso mesmo, não havia dúvidas da malandrice dessa maralha. Agora de Portugal! E de Espanha, mas onde ficava a Espanha? Para lá de Cáceres, para lá de Valverde del Fresno, ou entre os Fóios e Penamacor? Terra de fariseus, está bem de ver, para andarem assim tão a mal uns com os outros na sua terra. Bem, em Quadrazais a gente se matava por causa das denúncias dos mijamansinhos, que iam ao Sabugal meter tudo no rabo dos guardas fiscais, as horas da passagem, o volume do negócio, os carregos, e, arrenego, até os nomes de batismo das pessoas, coitadinhas, logo conduzidas à cadeia no meio das fardas, sabe-se lá com que destino...

Jesué Pinharanda Gomes | Liberdade de pensamento e autonomia de Portugal : a controvérsia da filosofia portuguesa / Pinharanda Gomes. - Lisboa : Espiral, 1971
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