Cestos com Asas (I) PDF Versão para impressão

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3. Cestaria de Gonçalo (onde a terra acaba e as mãos começam)
Está por fazer a investigação e o estudo que a extraordinária produção de Gonçalo há muito justifica e exige. Desconhece-se em que circunstâncias ali se desenvolveu tão importante centro produtor de uma cestaria que se executa, sobretudo, em vime, mas onde o salgueiro já desempenhou um importante papel. Certo é que o único centro português que pode competir com a cestaria de vime de Gonçalo, a Camacha, na Ilha da Madeira, considera que na sua origem estará um criado originário de Gonçalo que, com o seu amo, integraria os primeiros povoadores da Ilha, oficialmente descoberta em 1419...
Qualquer que seja a verdade que se encontra por detrás desta ficção, é um fato que ela legitima a primazia histórica que, na Camacha, se reconhece a Gonçalo, bem reveladora do respeito que a qualidade, prestígio e importância da cestaria e dos cesteiros de Gonçalo tanto merecem como justificam.
Também se desconhece como se desenvolveu e definiu a sua área de mercado que atingia mesmo o litoral da Região. Os extintos centros produtores da Espadaneira e Taveiro no concelho de Coimbra, ou da Carapinheira do Campo, no de Montemor-o-Velho, ter-se-ão constituído em consequência de antigas rotas, usadas pelos cesteiros de Gonçalo na comercialização dos seus cestos, por todo Campo do Mondego, ou mesmo pela Gândara, onde faziam a Feira de Cantanhede. A ligação do Campo à Serra da Estrela é antiga de séculos, pois que até há vinte anos atrás constituía um dos destinos de Inverno para os rebanhos transumantes.
Não existem, pois, nem a cronologia nem os números que caracterizem Gonçalo e a sua produção ao longo do tempo. A bibliografia que é possível encontrar, remete mais para as técnicas da produção dos cestos de que para as especificidades de cada centro produtor. Alguns dos melhores textos existentes sobre o tema foram escritos por pessoas que não se aperceberam de caso extraordinário que Gonçalo e os seus cesteiros representam e, atrevo-me a dizer, talvez mesmo nunca lá tenham estado...
Quando em 1995 atribuía a Gonçalo a possibilidade de aí existirem 70 a 80 cesteiros, fazia-o na consideração, apenas, de uma assumida profissionalização dos saberes que ali quase toda a popularização adulta detém.
Muito recentemente, em maio de 2003, numa reunião na Junta de Freguesia de Gonçalo, o Senhor Presidente da Junta mostrou os primeiros resultados de um conjunto de ações que ali começaram a ser desenvolvidas. No caso tratava-se dos inquéritos feitos a "todos os cesteiros" de Gonçalo, "mais de 300". Num primeiro momento, ao sopesar o conjunto das 219 respostas apuradas, sinto o chão a fugir-me debaixo dos pés. Afinal eu estava mesmo errada, e quando em 1995 a Câmara Municipal tinha respondido que seriam 150 os cesteiros de Gonçalo, o erro era por defeito e não por excesso, como havia pensado...
O desconforto foi tão forte que não resisti a fazer uma breve análise daquelas respostas.
Tratava-se de fichas de inquérito muito simples, cuidadosamente preenchidas, próprias para começar a avaliar a situação atual, antes de se imaginarem as estratégias que permitam equacionar e resolver os problemas que todos sentem: perda de mercado, concorrência de produtos asiáticos, falta de motivação para os jovens continuarem as oficinas familiares, enfim todas as caraterísticas de um iniludível declínio.
Os inquéritos, mesmo que sumários, permitem dizer que das 219 pessoas inquiridas todas sabendo fazer cestos, só 55 têm como profissão "cesteiro" ou "cesteira". Os restantes 164, detentores em maior ou menor grau do conhecimento das técnicas a que, por abreviatura, chamamos "cestaria", mas que incluem também a manufatura de mobiliário em vime ou bambu, ou seja, 74,9% do total ou estão reformados (33,3%), ou têm outras profissões principais (27,5%), ou são domésticas (11,4%), ou estão desempregados (2,7%).
Aqueles que dependem única e exclusivamente da produção tradicional de Gonçalo são, pois, 55 pessoas a que correspondem cerca de 50 oficinas, pois nalguns casos marido e mulher trabalham juntos. Estes 55 artífices mostram como um número a rondar as 70 a 80 pessoas, estimado em 1995, estaria próximo de uma realidade que, como se apercebe, se apresenta sempre muito fluida nos seus limites.
Das 219 pessoas inquiridas 122 são mulheres. Os 97 homens, correspondentes a 44,3% do total estão em minoria. Contudo, quando se consideram só os 55 que fazem da cestaria o seu principal, quando não o único, modo de vida a proporção altera-se e dos cinquenta e cinco cesteiros apurados, 30 são homens e 25 são mulheres, numa relação de 54,5% e 45,5% respetivamente. Afinal o mester de cesteiro não tem caraterísticas gêndricas tão acentuadas como se pensa habitualmente e, em Gonçalo, não só é banal haver cesteiras, como essa situação é muito antiga, não tendo nada a ver com movimentos sociais recentes que tornaram natural a ocupação de certas profissões. Tradição de Gonçalo, existe mesmo uma "cestaria de homem", mais robusta, pesada, (forte). Talvez por se tratar de uma caraterística tradicional da divisão do trabalho, nas oficinas familiares de Gonçalo, não se encontram cesteiras-empresárias, isto é, mulheres que além de dominarem os segredos da arte da cestaria, façam a gestão completa da sua produção, colocando-a no mercado, vendendo-a, discutindo preços com fornecedores e clientes. Para além das inevitáveis e escassíssimas exceções, que só confirmam a regra, a mulher, cesteira de Gonçalo trabalha ajudando o marido, como até há pouco as crianças, mal acabada a escola primária, eram postas a trabalhar, a ajudar na oficina dos pais, tios ou vizinhos.
Já se disse que o momento é de crise, senão mesmo de um declínio, palpável nos cestos que se amontoam nos armazéns, no olhar sombrio dos mais lúcidos, na ausência se gente nova que se dedique, a tempo inteiro, à profissão.
A média das idades daqueles duzentos e dezanove inquiridos é muito elevada: 57,3 anos, para os homens e 54,9 anos para as mulheres, tal como seria de esperar com tão grande percentagem de reformados. Contudo, o que de modo mais significativo traduz o verdadeiro envelhecimento dos cesteiros, daqueles cinquenta e cinco que trabalham a tempo inteiro, nem é o fato da idade média dos homens ser 54,9 anos de idade, e a das mulheres ser de 53 anos, mas sim a circunstância de não se encontrarem cesteiras com menos de 41 anos, nem cesteiros com menos 36 anos. Mais do que a presente crise, são estes os sinais que exigem que nos interroguemos sobre o futuro desta atividade.

 

 


Cestos com asas / Coord. Américo Rodrigues. Guarda: Câmara Municipal da Guarda e Junta de Freguesia de Gonçalo, 2003