Jaime Alberto do Couto Ferreira I PDF Versão para impressão

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Formosa, não o era, Fria, sim, porque foi erguida nas alturas fustigadas pelo vento agreste da meseta ibérica. Quanto ao resto, farta, forte e fidalga, apenas o que bastasse para não desmerecer por completo os epítetos. Mas formosa, não! Diziam-na mesmo feia...e de outro modo podia ser quem nasceu para viver de guarda?
Fortaleza, fez do granito o seu corpo e alma e, aninhada lá nas alturas, entre grossas torres e muralhas, longe de terras úberes, de rios e de mares, aquartelava o braço armado, impunha lei, abrigava as oficinas, o mercado e as feiras e, sobre o canelado castanho musgoso irregular dos telhados, os pináculos e contrafortes da catedral afirmavam os poderes de Deus e do Rei de Portugal.
Feia, porque afastada das rotas do Levante, dos caminhos de Santiago, das águas amenas de Bruges, Lisboa e Cádis, só indirectamente teve acesso aos pomos dourados da veniaga e, por isso, teve de tirar a subsistência do suor dos campónios e da solidão dos pastores que, nas cumeadas ou lá em baixo, nas encostas e nos vales, faziam medrar centeio, castanhas, azeite e vinho, renovo e o gado que os ajudavam nas fainas ou lhes serviam de iguarias numa mesa que nunca deixou de ser frugal. Abundância, só de horizontes e de trabalhos, de ar puro e de saber-se perto da raia, e isso bastou-lhe para, ao fim de séculos, ter uma história escrita em ruas, largos e casas de rijo granito, que hoje nos permitem achá-la...formosa!
A saúde, a educação, o turismo, o minério, o caminho-de-ferro, as estradas, as oficinas, as lojas, as repartições, os consultórios, a emigração...e o seu carácter rude e altivo fizeram-na avançar no século XX, com atrasos, conflitos, muita austeridade e dor (é certo), mas de uma forma inequivocamente progressiva, quer do ponto de vista material, quer espiritual.
Todavia, não convém que se esqueça que é formosa à sua maneira, em perpianho, e só depois de o poder municipal, para a "aformosear", a ter regulamentado, expropriado, alinhado, comparticipado, evitado o bota-a-baixo da planificação estatal, rígida e distante, e disciplinado a voragem impiedosa das figuras rapaces que se alimentam dos anseios e dos bens públicos. Formosa, pois, mas de uma maneira instável que só se revela e reforça quando de respeita o património e exige qualidade urbana e que de pronto se degrada e esvai com concessões ao urbanismo de compressor e à arquitectura do efémero, cuja hediondez estético-ética tem uma relação estreita com as ganâncias que proporciona.
A Guarda, a cidade, faz agora oitocentos anos. Não se pense que lhe chamamos formosa porque nos convidaram para o festim e não queremos vir de mão a abanar e, muito menos, que a achamos formosa porque um bairrismo exaltado e, além do mais, serôdio nos embotou o discernimento! Chamamos-lhe formosa porque, a convite da Presidente da sua edilidade, Maria do Carmo Borges, e do Vereador do Pelouro da Cultura, Virgílio Bento, começámos a estudar o que ela hoje é e, com os elementos recolhidos, não nos é possível outra conclusão: homens, ruas casas, ocupações, gestos de alegria ou de sofrimento, rituais e maneiras de ser compõem um extraordinário fresco que um grupo de pessoas agregadas pelo desejo de conhecer e compreender a cidade- Adriano Vasco da Fonseca Rodrigues, António José Gouveia Dias de Almeida, António José Ramos de Oliveira, Dulce Helena Pires Borges, Hélder Sequeira, João Paulo Avelãs Nunes, Joaquim Craveiro, José António Alves Ambrósio, José Luis Lima Garcia, José Manuel Trigo Mota da Romana, Manuel Luís Fernandes dos Santos, Maria Antonieta Garcia, Maria Cecília Lança falcão Dias, Norberto Gonçalves, Rui Missa Jacinto - aqui deixa esboçado. Que a virtude dos que sabem encadear presente, passado e futuro o conclua e, para que seja claramente visto hoje e amanhã, o inscreva nas graníticas paredes do quotidiano da Guarda. Trata-se de um conjunto diversificado de "olhares" escritos e fotográfico, que não são ainda verdadeiramente historiografia, mas apenas uma porta que procura abrir caminhos aos que a hão-de fazer. A ideia inicial era "olhar" para todo o século XX e em todas as direcções, mas depressa nos apercebemos de que o tempo nos faltava e de que na segunda metade da centúria houve uma ruptura profunda na vida da cidade que a fez extravasar da moldura que multissecularmente era a sua. Por outro lado, confinámos o estudo da Guarda ao da sua área urbana (amputada da Guarda-Gare) e alguns espaços suburbanos, mas fizemo-lo conscientemente, sabendo bem que uma cidade é um espaço multifuncional estreitamente ligado ao espaço físico e humano que a envolve, formando um complexo económico, social, institucional, político e cultural indissociável, mas, para que a pressa e a ambição não lesassem a qualidade, havia que seleccioná-lo. O resultado foi que nos ficámos pelo estudo do espaço restrito da cidade desde a abertura de Novecentos até ao termo dos anos cinquenta, procurando definir o património (não todo, mas o possível) que até então se construiu e que urge salvaguardar das impiedades dos nossos dias; o resto, a resenha do que foram os últimos quarenta anos, entusiastas, controversos e não poucas vezes incómodos, é por agora um projecto, que o vigor demonstrado pela vida material e espiritual da Guarda há-de concretizar.

 

 


Jaime Alberto do Couto Ferreira - In A Guarda formosa na primeira metade do século XX / Coord. Jaime Ferreira. - Guarda : Câmara Municipal, 2000.

 

 

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