Maria Antonieta Garcia PDF Versão para impressão

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Poucos são os registos sobre a actividade maçónica na Guarda. A Casa ficava ali aconchegada entre a Torre dos Ferreiros, do lado da Rua Tenente Valadim, e a Pensão Santos. Um incêndio deixou-a em ruínas. Ao abandono durante décadas, abriu-se um espaço vazio que o imaginário da cidade povoou com histórias reais e inventadas que se criavam sobre os maçons. Quem não soube, por exemplo, que o fogo tinha desocultado caveiras misturadas nas cinzas? Quem não temeu a ideia de haver pessoas que têm práticas que incluem objectos macabros? Pior ainda, quem não pensou na origem das ditas caveiras? Como apareceram naquela casa? A identificação de alguém como maçon provoca receios, e a casa onde se reuniam era, por certo, uma casa assombrada... Fantasmas construídos pelo medo, pela ignorância e, compreendemos mais tarde, por muita má-fé, sobrevoavam naquelas ruínas. Associar caveiras, mortes com as pessoas que integravam a Maçonaria, era natural. Apagava-lhes a dimensão de gente de bem, gerava desconfianças, mesmo na terra pequena, onde todos se conheciam e reconheciam as práticas e valores que a maioria abraçava. Quando se reflectia sobre a solidariedade que ofereciam, uma pontinha de dúvida aflorava. Depois crescia, avolumava-se...até chegar a hora de presumir que esta era outra história mal contada... A Maçonaria é uma instituição que adoptou como divisa "Liberdade, Igualdade e Fraternidade"; respeita as crenças religiosas, embora seja possível identificar linhas diferenciadas de acção e de opções entre os maçons. A par de defensores de um laicismo tolerante, não anti-religioso (recusando, embora o privilégio da Igreja Católica, enquanto religião do Estado), coexistiram correntes radicais que viam nos sacerdotes, sobretudo nos Jesuítas, um obstáculo à concretização do projecto de fraternização do mundo. Com graus de adesão diversos eram muitos os que se situavam entre estes dois pólos.
Como no país, na Guarda, a maçonaria esteve, maioritariamente, com os valores dos republicanos. Cremos, na verdade, que" ...pelo receio de repetir a mania dos escritores reaccionários de atribuir as resoluções aos manejos satânicos de seita maçónica, não se tem reparado no quanto, o projecto republicano tinha a ver com o projecto maçónico de fraternidade universal".
A partilha de rituais iniciáticos e de identificação e de identificação tornou-os suspeitos e temidos. Paralelamente, o secretismo que envolvia a instituição gerou representações que a erigiram como encarnação de todo o mal. No período da Primeira República, forças clericais, da facção dominante da Igreja, elegem a Maçonaria como bode expiatório. Durante os 16 anos do regime, há cambiantes. Mas as lojas e triângulos maçónicos expandem-se por todo o país. Naturais e residentes na Guarda foram iniciados e, no distrito, funcionaram triângulos em Gouveia, Seia, Trancoso, Vila Nova de Foz Côa, Sabugal, Pinhel, Mêda.... Na Covilhã, em Penamacor, Belmonte, Fundão, os maçons abrem lojas e triângulo, sobretudo a partir de 1911.
Algumas personalidades que integraram a Maçonaria tiveram papel relevante na região, no país. Ligados ao distrito da Guarda, lembramos a título de exemplo, Afonso Costa, o General João de Almeida (tão diferentes na opção político-partidária e ambos maçons, uma confirmação do que anteriormente referimos), José Augusto de Castro, José da Costa Pina... e uma mulher de excepcional coragem: Carolina Beatriz Ângelo. Nascida na Guarda em 1877 [i.é. 1878], foi a primeira mulher a exercer cirurgia em Portugal. Desempenhou funções importantes nos movimentos feministas do início do século. Vice-Presidente da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas [1909-1911) e Presidente da Associação de Propaganda Feminista, votou nas eleições legislativas de 28 de Maio de 1911. Como explica Fernando Catroga, "A médica Carolina Ângelo achou que reunia as condições de "cidadão português" e de chefe de família – tinha ficado viúva Há pouco tempo – e, por isso reclamou na 1ª Vara Civil de Lisboa que o seu nome fosse integrado nos cadernos eleitorais. Numa decisão inédita em Portugal, o seu protesto foi atendido, pois o juiz, Dr. João Baptista de Castro (sintomaticamente pai de Ana de Castro Osório) considerou que: 1º, as mulheres portuguesas são cidadãos portugueses do mesmo modo que os homens, conforme o estipulado no Código Civil (art.º 18º), dado que podem ler e escrever, ser chefes de família, satisfazendo assim os requisitos da lei: 2º esta não as excluía de modo explicito; 3º, a concessão do direito de sufrágio às mulheres era um imperativo de justiça e vinha ao encontro do interesse geral. E esta foi uma decisão que possibilitou o primeiro exercício de voto feminino em Portugal".
Filha de Viriato Ângelo, também ele defensor da República, Carolina Beatriz Ângelo interveio publicamente, reivindicou direitos que alterassem a situação de margem vivida pelas mulheres. Fez pacto de aliança com pessoas com quem partilhava o sonho de construir uma nova ética. Rejeitou os padrões de submissão, escolheu enfrentar criativamente a secular divisão de poderes entre homens e mulheres, desafiou o consenso no que respeitava ao dossier de partilha entre as esferas masculinas e femininas. As fronteiras do proibido eram, então, muito longas, construídas por heranças familiares e culturais de séculos. Assim se teceu um modelo de mulher sempre renovado, prisioneiro de discursos e de olhares cerzidos na tranquilidade de quem é dono do tempo. Na verdade, poucas mulheres saíram da sombra, ousaram tomar a palavra e questionar os cânones estabelecidos. Carolina Beatriz Ângelo orientou a sua luta obrigando a repensar a legislação vigente, desvelou uma linguagem marcada pelo sexismo, resistiu. Transgressora, abraçou o combate cívico, tornou-se protagonista da História.
Em 1914, O Combate presta homenagem" ...a uma figura feminina, filha ilustre da Guarda". O texto assinado por Ana de Castro Osório, Presidente da Liga das Mulheres Republicanas Portuguesas, recorda: "Uma feminista que bem honra o nosso credo (...); Ela a única mulher em Portugal que teve voto (...) tem um nome que não se apagará na história do nosso país"
Carolina Beatriz Ângelo, médica, feminista, republicana, foi iniciada em 1907, na maçonaria, na loja Humanidade de Lisboa, com o nome de Lígia.
Como associar as representações satânicas que emergiam de discursos, povoaram o imaginário de portugueses, assombraram o espaço daquela casa aconchegada entre a Torre dos Ferreiros e a Pensão Santos, com esta figura de mulher, com o que sabemos sobre pessoas que referimos? Oliveira Marques na obra que citámos, ensina, entre outras coisas que, em rituais maçónicos, a caveira é usada, por exemplo, como indicação" ... ao futuro maçon que se deve desprender das ossadas terrenas, da putrefacção do túmulo, para nascer de novo". E qualquer prova iniciática remete para um renascimento...

 

 


Maria Antonieta Garcia In A Guarda formosa na primeira metade do século XX / Coord. Jaime Ferreira. - Guarda : Câmara Municipal, 2000.