A guarda, ao tempo da Proclamação da República… PDF Versão para impressão

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Em 1910, o concelho da Guarda tinha uma população de 41.517 habitantes. A cidade com mais de sete séculos de história, era sede de diocese, cabeça de concelho, de comarca e de distrito. Servida pelas linhas da Beira Baixa e da Beira Alta, circulavam, na cidade, diligências que conduziam as malas do correio para a Estação localizada a uma distância de 5 quilómetros. Cada passageiro despendia 150 réis e tinha direito a transporte de bagagem até 15 quilos.

Realizavam-se duas feiras anuais, a de São João – a 24 de junho – e de São Francisco – 4 de outubro -, cada uma com a duração de três dias. Aos domingos e quartas-feiras realizava-se o mercado farto com produtos frescos do Vale do Mondego.
Seis advogados – António Luís Rebelo, Arnaldo Bigotte, Boto Machado, José d'Almeida, Leandro Homem de Almeida e Sebastião de Morais – e um juiz – Augusto César Fernandes – resolviam questões judiciais.

As Agências bancárias estavam nas mãos de António Marques da Cunha Mantas, Augusto Pissarra, Fernando António Patrício – Economia Portuguesa -, e de Alexandre dos Anjos Patrício, Luís Ribeiro de Portugal – Banco de Portugal -.
Os seguros – Internacional, Sociedade Portuguesa e Urbana Portuguesa – eram geridos por Manuel Ribas, Júlio Cabral, e Ernesto da Cruz Melo. Os seguros de vida pertenciam a António Marques da Cunha Mantas e a Ezequiel Angelino Batoréu.

Eduardo da Cruz Melo, para além dos Seguros de vapores – Mala Real Inglesa – possuía o Bazar do Povo - publicitado como o estabelecimento mais importante das províncias e onde se encontram todos os artigos necessários à vida – vendia as modas e os móveis, fazendas, guarda-chuvas, ourivesaria, paramentos religiosos, era relojoeiro, tinha sapataria, chapelaria, a agência funerária e fabricava cera.

Era vice-presidente dos Bombeiros Voluntários.

O dourador da cidade era Manuel Nunes Vitória & Filhos. As carruagens alugavam-se a Mello Osório & Cª.

A Guarda contava com 8 barbeiros, 7 alfaiatarias, 6 chapelarias, 11 mercearias, 2 ferradores, 2 fotógrafos, 3 encadernadores, 3 estucadores, 3 serralharias, 3 tipografias, 3 sapateiros, 4 talhos municipais, duas marcenarias, dois latoeiros, dois correeiros, um eletricista, um tamanqueiro.

O Liceu, a Escola de Habilitação ao Magistério Primário, o Seminário, eram estabelecimentos de ensino prestigiados. O Colégio de Nossa Senhora de Lurdes educava meninas. Serviam-nos as livrarias de António Joaquim de Carvalho e de Miguel António Pina.

A hotelaria estava entregue a Abel Ferreira de Abreu e José António dos Santos. As estalagens de António Neves e de Cristiana Sá Osório apoiavam os moradores e visitantes. Recebiam hóspedes, para tratamento da tuberculose e outras doenças, as casas particulares de Maria Augusta (Tamanqueira), Manuel Abrantes e Maria Lino (Secca). O Hospital da Misericórdia contava com os médicos Amândio Paul e João Monteiro Sacadura; o serviço de enfermagem era assegurado por irmãs hospitaleiras. Eram cincos os clínicos da Guarda – Amândio Paul, António Augusto Proença, António José Gomes, João Monteiro Sacadura e Lopo José de Carvalho. Uma parteira, Albina de Jesus Carneiro, amparava os nascimentos.

A medicação era preparada e adquirida nas Farmácias: Carvalho & Cª; Júlio de Almeida; Manuel José Rego; Marques dos Santos; Misericórdia.

O veterinário da cidade era José Augusto de Sá e Melo.

O Clube Egitaniense e o Grémio Sande e Castro funcionavam como sociedades de recreio. Outras associações, noutras áreas, iam desde a de classe dos Empregados Egitaniense, aos Socorros Mútuos. O Asilo de Infância Desvalida era presidido por Júlio Ribeiro.

Patrício & Balsemão tinham uma fábrica de lanifícios; a da seda pertencia a F.A. Patrício & Cª.

Fazendas vendiam-se em 13 casas comerciais. A Câmara Municipal, o Governo Civil, a Misericórdia, Notários, Conservatória, a Guarnição Militar, a Polícia, as Obras Públicas davam vida à cidade. Pelos jornais, O Combate, A Guarda, Distrito da Guarda, Jornal do Povo, Notícias da Guarda, veiculavam-se os acontecimentos olhados pelo ângulo de visão dos partidos políticos de que eram voz. O teatro funcionava nos Bombeiros Voluntários.

Eram professores nas escolas da Sé e de São Vicente, Alfredo Mendes Cabral; António Joaquim de Carvalho, Coleta de Jesus Rodrigues e Estefânia de Albuquerque.

A proclamação da República provocou, como no resto do país, paixão, alvoroço e estremecimento entre os guardenses. A 7 de outubro, tomava posse como Governador Civil, por nomeação do Governo Provisório, Arnaldo Bigote. Na cidade, informava, reinava absoluto sossego. O desassossego, em temor, era íntimo; o alvoroço, em alegria, era comemoração.

 

 


Maria Antonieta Garcia - In Euforia breve : memórias da primeira República na Guarda / coord. Maria Antonieta Garcia ; texto António de Almeida Santos... [et al.] ; prod. Alexandra Isidro... [et al.]. - Guarda : Câmara Municipal, 2011