Pinharanda Gomes | É tempo de a Guarda saber quem tem. PDF Versão para impressão

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Nos escaparates dos livreiros apareceu o volume intitulado "O Escritor na Cidade" (Verbo, col. Presença, 1986) assinado por João Bigotte Chorão. Importa que a Guarda, sua terra natal, o identifique e o estime com o valor do seu património espiritual. Filho de uma das melhores famílias de Riba-Côa, João Bigotte Chorão nasceu nesta cidade serrana em 1933, irmão de um conhecido e prestigiado autor do nosso pensamento jurídico, Mário Bigotte Chorão. Ao modo de outras famílias beirãs, no intuito de dar aos filhos o melhor, também a família Bigotte Chorão sedeou em tempo por Coimbra, onde os filhos cursaram estudos. Em Coimbra, João Bigotte, e também seu irmão, afirmaram personalidade e militância no C.A.D.C., sendo assinalável que ele foi membro de uma das últimas gerações que manteve aceso o facho do idealismo católico daquele organismo coimbrão, prócere da democracia cristã, em cuja fundação achamos outros homens da Guarda, como Álvaro Joaquim e Alberto Diniz da Fonseca. Na revista Estudos, João Bigotte Chorão terá iniciado a carreira de escritor, depois e desde então prosseguida com firme lealdade à verdade e à beleza, garantes do mais íntimo da sua pessoa – a bondade. Importa relevar esta relação de juízo ético, já algures apontada pelo poeta Moreira das Neves.
Escritor intimista, mas não escritor de intimidades, o sentido da visão é mais forte nele do que o sentido da razão discursiva. Dizendo visão significamos a sensação interior, o ato pelo qual a metáfora do exterior só devem realidade na metáfora interior, na interior visão, que transforma todo o sensível à medida e à imagem do ideável. Biógrafo, por isso, enquanto a biografia e a transrelação da história, apocalipse do essencial em que todo o contingente e todo o possível são absorvidos pelo necessário e pelo absoluto, João Bigotte Chorão inspirou a muitos a imagem de um memorialista, em cujo diário o autor registaria a fenomenologia da existência situada, segundo a óptica de uma situada verdade, e segundo o ritmo da sua verdade de ver ou do seu próprio ser de verdade.

 

 


Pinharanda Gomes | A Guarda culta : imagens de literatura, música, poesia e religião / J. Pinharanda Gomes. - Guarda : Instituto Politécnico, 2002.