Eduardo Lourenço | Extrato de Europa desencantada III PDF Versão para impressão

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Fantasmagoria europeia: nós e a nova Espanha (II)

 

As expressões folclóricas que neste momento, da maneira mais artificial, ressuscitam o anticastelhanismo da época em que Portugal e castela efectivamente buscaram mutuamente hegemonizar-se, são uma aberração, mas são também um sintoma. Dilucidar o sintoma é mais interessante e mais urgente do que tomar a sério o reflexo do pânico absurdo diante da Espanha. Como se explica que na "hora da Europa" uma certa fração da classe dirigente – a mais ligada por atavismo e interesses ao antigo modelo nacional-conservador – descubra na "cruzada" antiespanhola uma mina de diversão e de potenciais votos? O que seria de esperar era uma vaga, mais ou menos intensa, de antieuropeísmo como resposta impotente, mas também potencialmente mobilizadora face a uma "nova ordem europeia", na qual temos dificuldade em nos ver como protagonistas. Sem falar da distância secular e do não menos intenso ressentimento (e ufania) de peninsulares diante da outra Europa, mais rica, mais poderosa e mais tecnicamente evoluída. Na verdade, a amplitude que tomou este fantasmático antiespanholismo é realmente um subproduto de um mais sentido e profundo reflexo antieuropeu. A Espanha é só "a Europa" que temos – que têm os manipuladores do sentido nacional – mais perto, uma Espanha mais "europeizada" do que nós alguma vez podíamos supor, nós, Portugueses, que contraditoriamente sempre gostámos de nos imaginar, em oposição aos espanhóis e, em geral, ao mesmo tempo, "marginais" e "cosmopolitas". De repente descobrimos que o nosso eterno Paris ou a lendária Londres dos séculos XIX e metade do XX, podiam ser Madrid ou Barcelona... A indolente, a mágica Lisboa que Pessoa adorava por acordar mais tarde do que as outras capitais (tão espanhola nisso afinal), estremeceu. Estremeceram nela os nossos protegidos yuppies habituados a reger as suas sinecuras depois das onze horas quando a noctívaga Espanha há muito tempo acerou os seus relógios pela hora tirânica, mas por enquanto fatal, da fatal Europa. Como reagir diante de tão inabitual ofensa aos nossos deliciosos, ronceiros, modos de gerir a nossa vida caseira, como diria Eça de Queirós?

 

Vir para a praça pública, alertar as boas almas, gritar que nos roubaram, que nos roubam aquela mágica substância do nosso ser nacional, cultura que nunca interessou minimamente os novos histriões do ultranacionalismo. E para maior êxito, imaginaram ou inventam uma ameaça irreal – precisamente no plano da cultura, onde só as nossas carências ou impotências nos são inimigas da parte de uma Espanha que tem mais em que empregar a sua energia. Em operações financeiras, industriais, económicas com sentido largo, por exemplo, em suma, ações de lógica imparável dentro de um consenso liberal europeu, que é a bíblia desses mesmos arautos do ultranacionalismo cultural. Negócios, negócios, cultura à parte, pensam esses sublimes defensores da cultura nacional, mais fácil de defender – em palavras – do que os interesses e o património económicos nacionais de que conhecem a expressão reduzida e a vulnerabilidade. Na impossibilidade de reforçar o tecido económico nacional, e ainda menos de designar "o inimigo" nessa ordem de realidades ou, na ausência, "o amigo" que ajude a consolidar, numa perspetiva nacional, as nossas estruturas produtivas, proclama-se a cultura ameaçada, a identidade nacional em vias de dissolução. E ressuscita-se um "antiespanholismo" de pura ficção.

 

Nestes termos anacrónicos que nem o antigo regime cultivou, este surto "chauvinista" é burlesco e sem objeto. Este fenómeno tem lugar no mesmo país onde nunca as criações culturais, precisamente, haviam conhecido tanta visibilidade, tanto reconhecimento e sucesso na Europa, como hoje. A começar pela Espanha, onde nomes como Saramago, Vergílio Ferreira, Eugénio de Andrade, Lídia Jorge, Lobo Antunes, Cardoso Pires, são conhecidos do grande público cultivado. Pela primeira vez, desde os tempos abençoados de Garcilaso e Camões, Luís de Léon e Cervantes, há entre as nossas duas culturas qualquer coisa que se assemelha a um diálogo interpares. Desta presença no «mundo» os mesmos chauvinistas são os primeiros a ressentir a patriótica ressonância e, sempre que calha, a dourar com ela a lapela estéril do poder que é só poder.

 

A cultura de um país vive da permanente revisitação do seu fundo imemorial, dos seus arquivos imaginários, sem precisar de inventar guerras de ficção para se mobilizar. A folclorização oficial ou oficiosa dos atores sem palco do ultranacionalismo nada tem que ver com esse diálogo com o imemorial de nós mesmos. É a sua macaqueação inócua. Esperamos que passe.

 

Roma, 4 de Dezembro de 1990

 

 


Eduardo Lourenço - Extrato de Europa desencantada: para uma mitologia europeia / Eduardo Lourenço; rev. Eunice de Matos. - 2ª ed. - Lisboa: Gradiva, 2005