Eduardo Lourenço | Extrato de Europa desencantada II PDF Versão para impressão

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Fantasmagoria europeia: nós e a nova Espanha (I)

De repente, Portugal descobriu a Espanha. Podia ser uma excelente ocasião para se descobrir a si mesmo como naturalmente «hispânico», mas os sinais apontam para outra tentação. Ou antes, para o secular hábito que a nossa classe dirigente sempre teve de poder em paz consumir sem sobressaltos a magra herança do nosso exíguo jardim. Chama-se a isto patriotismo, nacionalismo, amor natural de preferência pelo que é nosso ou nós somos.

Mas as proporções que o fenómeno está tomando, o pânico real, imaginário e, sobretudo, cultivado, que a nova Espanha começa a inspirar entre os guardiões desse nacionalismo, merece mais do que esta simples alusão irónica. Protegido pela Europa de uma eventual absorção – fantasma que, a sério, só durante os anos após a Restauração teve alguma consistência – Portugal acordou de súbito com o sentimento kafkiano de ter dormido, sem dar-se conta, durante três séculos, lado a lado, com a avó do Capuchinho Vermelho. Este pânico é uma aberração e não é por acaso que está sendo encenado neste momento pelos herdeiros de tudo quanto há de mais reacionário no plano político e ignaro no plano da cultura. E, como se isso não bastasse, esses cavaleiros andantes da lusitanidade em transe patriótico ignoram que um tal reflexo é a expressão crua da falta de confiança nas capacidades históricas do país real que julgam promover, mobilizando o que há sempre de infantil no chamado sentimento nacional.

Este surto do ultranacionalismo, de puro recorte ideológico e demagógico, surge precisamente no momento em que a Espanha também nos descobre, não apenas como espaço (pequeno) de investimento económico, mas como espaço cultural digno de atenção e até de fascínio. É caso para lembrar o nosso saboroso provérbio: «preso por ter cão e preso por não o ter». Durante anos foi uma lamúria permanente, um queixume pelo desconhecimento mais ou menos voluntário a que a nobre Espanha nos votava. Agora que os nossos autores começam a circular na casa vizinha como se fosse própria e às vezes até com mais sucesso (Pessoa tem hoje mais leitura em Espanha do que em Portugal) surge o temor diante de tão ecuménica capacidade de nos amar em excesso para nos devorar. Na verdade, o que devíamos lamentar é o facto de que o conhecimento de Portugal por Espanha, hoje em fase realmente nova e não apenas retórica, deixe ainda a desejar. Mas como queixarmo-nos, sabendo, como sabemos, que o nosso desconhecimento de Espanha é abissal?

 

Roma, 4 de Dezembro de 1990

 

 


Eduardo Lourenço - Extrato de Europa desencantada: para uma mitologia europeia / Eduardo Lourenço; rev. Eunice de Matos. - 2ª ed. - Lisboa: Gradiva, 2005