Da Guarda – um rebusco da memória PDF Versão para impressão

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Cheguei à Guarda logo depois da guerra, mas esta não nos livrou dos exercícios físicos militares bem tormentosos...
A Guarda era ao tempo um burgo muito reduzido, pouco passava além das muralhas, com o seu frio arrepiante e nevões abundantes e frequentes, às vezes à altura dos joelhos... E duravam dias sobre o solo!
Nesse ano, o primeiro que cá passei, houve um desses, respeitável, em 27 de Maio! De aterrar os mais valentes e para aprender bem a lição consolavam os recém-chegados soprando-lhes ao ouvido que até já nevara no S. João!


Desde Tomás Ribeiro, no seu "D. Jaime", até aos relatos dos meus Pais, que aqui tiraram o curso na antiga Escola Normal, tudo respingava frio e vento gélido, de tal sorte que a cidade era a terra dos quatro FF (Farta, Fria, Feia e Falsa): a mestria e veia "diplomática" de certo autarca e seus asseclas, converteram-na em cinco FF, mais testemunho da atenção e afecto pela mais alta cidade de Portugal: Farta, Forte, Fria, Fiel e Formosa – belo golpe de magia para os cépticos e pessimistas.
Honra lhes seja feita por isso!
É que tenho ouvido os mais rasgados elogios à Guarda, feitos por quem de cá não é e a vê pela primeira vez (embora o inverso não deixe de ser verdade...)
Repare-se que este rebusco de memória vem apenas da década de quarenta, pois não fui cá estudante. Que ficou de mim, desde esses tempos já muito próximos? (mais de meio século já conta!)
As Feiras de S. João e S. Francisco, feitas no Campo (ali ao lado do antigo quartel), largamente frequentados, com alegria nas caras e nos corações, mil brincadeiras à mistura, com o hábito de oferecer a "feira" (qualquer bugiganga ou pequena lembrança que se ofertava aos amigos, às meninas do nosso círculo ou às pessoas mais chegadas).
Eram dias de reboliço e havia bancas por todo o lado, sem faltarem os pirolitos e as gasosas... a garotada com os apitos e assobios, o realejo e o rufar dos pequenos tambores, entravam agressiva mas toleradamente nos ouvidos e julgo que transmitiam alguma boa disposição aos que passavam ao lado. Dava-se conta que a cidade bolia e havia sorrisos indiscriminados dos que deambulavam pelas ruas atravancadas, daqui para ali, o tocar nas mercadorias com as mãos e até com os pés, por estarem estendidas ao longo dos passeios! Era a publicidade ao vivo...
Como tudo mudou!
Um dos traços característicos eram os bailes no Club (Egitaniense), dotado de salas com dignidade e de um salão de baile à altura, e os bailes eram vários – no Carnaval, na "mi-carême", o dos finalistas do liceu e outros. Alguns com traje de gala: tinham o seu interesse, animavam as hostes, dispunham bem e davam um certo "tom" à vida social da urbe, que via nisto uma pontinha do campo do seu brasão.
Uma das facetas mais curiosas, que os neurónios estão a chamar ao bico da minha caneta, era o contrato dos ranchos de ceifeiros: rapazes e raparigas das aldeias circunvizinhas, vinham em grupos alegres, com chapéus e lenços enfeitados com flores silvestres, cantando e bailando, às ordens de um maioral que os contratava para as ceifas (quando as searas vicejavam por aí, vergadas à brisa que soprava e faziam ondular aquele mar vegetal). Havia uma arrematação disputava pelo maioral que os havia de levar ao local próprio da seara do arrematante.
Cantavam, bailavam em movimentos rápidos e jovens, que se transmitiam à gente citadina que deles se lembre com saudade, lamentando o corte desta tradição bem curiosa. Nuno de Montemor, num dos seus livros (não me lembro qual) retrata esta faceta do nosso verdadeiro folclore que hoje não podemos presenciar.
Para se ver a proporção do que era a cidade, lembro que, quando chegávamos à estação, vindos de comboio, mal se via, lá no alto, uma luzinha tremeluzente e que até se deixava de ver com a agitação da ramagem das árvores em volta: qual pirilampo a aparecer e desaparecer, é o pleno contraste com que hoje sucede, em que chegamos e vemos o brilho de muitas luzes de autêntico centro urbano.
Não é possível dar correspondência exata desta realidade porque se passou de oito (ou perto disso) para o oitenta (mais e mais).
Escolas? As primárias, e o seminário maior, o liceu, bastante mais tarde a Escola do Magistério. Nada mais.
Carros lá se iam vendo meia dúzia; transportes colectivo urbanos, zero (que é igual a nada). Parques de estacionamento, nem pensar nisso.
Nem, aliás, eram necessários.
Neste retrato "à la minute", aqui têm a Guarda que eu vim encontrar, mas que, na sua pobreza e miserabilismo, ainda faz vir ao espírito e ao coração um resquício vivo de saudade.
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Abílio Bonito PerfeitoAbílio Bonito Perfeito in Guarda livros : textos e contextos / selecção e org. António José Dias de Almeida. - Guarda : Câmara Municipal da Guarda, 2004.