Os últimos dias de Franciscanos e Clarissas na Guarda (II) PDF Versão para impressão

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Em Maio veio o Decreto do 'Mata Frades'. Que bens? O imóvel do convento, depois quartel, foi avaliado em 2.000.000 reis. Neste valor incluía-se a casa adjacente, com escadinha para o largo, que não era da ordem Franciscana Regular, mas pertencia, de iure e de facto, à Ordem Terceira (secular) de S. Francisco, isto é, a uma associação de leigos que se orientava pela espiritualidade franciscana e recebia direcção espiritual dos conventuais. O maior valor cobria a quinta anexa, onde se instalou a parada do Quartel, adventícias construções militares e a famosa horta dos frades, a par da Quinta dos Pelames, cheia de fontes e de corropios de águas, a dar couves todo o ano, até debaixo da neve, e com lameiro para duas juntas de vacas e uma dúzia de borregas e chibas, para uso dos frades. Valia 1.200.000$00.
Quanto à livraria, tinha 116 volumes, de Teologia e Missais. O valor matricial atribuído foi de 322 mil reis. Isto foi o que os frades declararam. Curioso é, portanto, o seguinte:
O Administrador Geral da Guarda, Sr. António Coelho das Neves Canaveira, em ofício de 9 de Outubro de 1839 para o Ministério do Reino (B. N. Lx.a, Reservados, m.s. 225) sobre as livrarias conventuais do distrito, diz ter examinado as livrarias.
Era seu juízo que apenas existiam livros truncados de diversas obras, como o Grande Dicionário Catorico (sic), em espanhol, em vários tomos, «e alguns diversos livros em bom uso, em pequeno número». E conclui o relatório: «e o restante se acha dilacerado, e por consequência de nenhuma utilidade». A Comissão Governamental das Livrarias deu-se por satisfeita?
No que respeita à comunidade, ela estava constituída por dez religiosos, mas em 26 de junho de 1834, um mês depois da lei aguilista, residentes de facto estavam os seguintes frades:
Fr. José da Conceição Santa Rita (Guardião); Fr. Manuel do Espírito Santo Araújo (Presidente ou Prior); Fr. Alexandre Salvador; Fr. Manuel de São Frutuoso, que não se evadira, apesar de ter pregado a favor da aclamação de D. Miguel I, Rei de Portugal. Enfim, um frade leigo, não presbítero, Fr. Manuel de São Frutuoso se achava de licença canónica.
Os demais frades da comunidade encontravam-se evadidos, em virtude da invasão espanhola de Rodil. Eram eles: Fr. António de Pádua Oliveira, confessor conventual, que regressou três dias depois da aclamação da Rainha D. Maria II, sem receio de ser perseguido; D. José de Nossa Senhora do Bom Coração, evadido, que não mais voltou; e dois frades leigos: Fr. Manuel da Conceição, evadido, que voltou; e Fr. José do Coração de Maria Viseu, dos evadidos que não voltou.
Em síntese, a comunidade era constituída por três frades leigos, e sete frades presbíteros, num total de dez frades. De todos só estavam presentes e residentes no dia 26 de junho de 1834, seis deles. Os demais achavam-se foragidos por razões de natureza política.
Muitos frades ingressaram no clero diocesano, de onde o nome de egressos, mas hoje em dia é muito complexo saber qual o destino destes frades franciscanos da Guarda.
Para onde foram? Exilaram-se em Itália? No Ultramar? Tornaram-se egressos no clero diocesano? Relaxaram-se na vida? Só Deus sabe. A nós baste saber quem rezava, cantava e ocupava os claustros de S. Francisco da Guarda.

 

 


Jesué Pinharanda Gomes - Memórias da Guarda : (escritos acerca da cidade e da região) / J. Pinharanda Gomes. - Guarda : Câmara Municipal, 2001.