Os últimos dias de Franciscanos e Clarissas na Guarda I PDF Versão para impressão

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Os Últimos Franciscanos

Como estava o Convento de S. Francisco da Cidade quando Joaquim António de Aguiar decretou a extinção das Ordens Religiosas e a nacionalização dos bens conventuais?
A seção do Arquivo Histórico do Finanças, (Inventário n.º 177, na Caixa n.º 2218) conservada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa), dá-nos a imagem possível do estado conventual.

É preciso desconfiar, no que respeita ao arrolamento de bens e de trastes móveis (quadros, livros, jóias) sempre de fácil escondimento embora se não possa dizer o mesmo dos bens imóveis registados em sede de Conservatória (ou equivalente) e dos montantes financeiros em transações (sobretudo empréstimos a juros) devidamente registadas nas escrituras banco-notariais. Por vezes há quem pense que, antes de os inventários do Estado terem sido efetuados, os frades e as freiras dos conventos e dos mosteiros esconderam o que puderam. Não é bem assim; e não é bem assado. O termo médio talvez seja preferível. Só um insensato acreditaria que, no mesmo dia do Decreto, o pessoal das comunidades religiosas não mais tocou em coisa alguma.
E só um desonesto pensará que os frades e as freiras esconderam tudo o que puderam. De facto, quanto aos arquivos de consciência e de governo disciplinar, os frades e as freiras tinham o direito de pôr os escritos e os registos em salvaguarda, por isso que, nas Casas das Ordens em Roma, há variadíssima documentação relativa ao Portugal de 1834. É também natural que, na previsão de exílio, as comunidades tivessem retirado e posto a bom resguardo os livros das suas bibliotecas, não todos mas os que lhes pareciam de maior interesse. Quantos livros há em casas religiosas de além-Pirinéus, oriundos do Portugal de 1834? E quantos reverteram para a agora chamada Biblioteca Nacional, onde se contam por milhares, excetuando os que foram parar a outros destinos, como o Ministério das Finanças e o Ministério da Marinha (um dos principais herdeiros da Cartuxa de Évora!). O destino das alfaias de culto, notadamente as pratas e os oiros, é muito obscuro. O Dr. Fernando Jasmins Pereira, no artigo 'Bens' do Dicionário da História da Igreja computou as arrobas de prata e de oiro existentes em 1834 e as percebidas pelo Governo: uma boa metade desapareceu. Foram os frades? Foram as freiras? Foram os Comissários de Estado? Foram os Administradores de Concelho? Foram os inventariadores da reforma? Quem o sabe?
Os anos 1830 foram muito conturbados na Guarda, os carlistas, ou partidários de D. Carlos V de Bourbon, derrotados os liberais, atacaram por onde quiseram abateram a fronteira e fizeram da Guarda um teatro de operações, como se fosse a primeira Guernica! Era o mês de abril de 1834.

 

 


Jesué Pinharanda Gomes - Memórias da Guarda : (escritos acerca da cidade e da região) / J. Pinharanda Gomes. - Guarda : Câmara Municipal, 2001.