Jorge de Sena I PDF Versão para impressão

SENAjorge

(...) em 1978, cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que, em público, me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da revolução de Abril de 1974 (...)

(...) eu não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, porque, quando saí de Portugal, tinha vinte anos de escritor publicado, e desde então a maior parte da minha obra, ou grande parte dela, foi escrita para Portugal ou em Portugal publicada. (...)

(...) Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha, e por isso disfarçam a sua insegurança adulta sob a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. (...)

(...) Sejamos francos e brutais. Há, neste momento, milhões de portugueses dispersos pelo mundo em mais de um continente, e não só na Europa de que são mão-de-obra. O País pensa neles, e deseja recordar-se deles. Mas o País, pura e simplesmente, na situação económica que herdou e em que se encontra, e toda a gente sabe desastrosa, não pode prescindir do dinheiro deles, ou do dinheiro que eles costumam enviar para a santa terrinha, ao contrário do que faziam e fazem portugueses do território nacional, que mandavam e mandam o seu dinheiro para o anonimato dos bancos da Suíça. Deste modo, celebrar as comunidades portuguesas no dia do santo nacional que celebrou a expansão imperial do País é, ao mesmo tempo, um belo ideal e um cálculo muito prático. (...)

(...) Ao mesmo tempo, este poeta-herói-épico [Camões] é o poeta-homem, exemplo de ser-se português, em exílios e trabalhos, em sofrer incompreensões e injustiças, e – ao contrário do que sucede ou sucedeu a alguns – regressar com as mãos vazias, apenas rico de desilusões, de amarguras e do génio que havia posto numa da mais prodigiosas construções jamais criadas. (...)

(...) Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, e os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria Pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. (...)

(...) [Sobre Camões] Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante (...) [e] todos vós aprendereis a conhecer melhor quem sois aqui e no largo mundo (...).

(...) Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele, é renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. É esquecer-nos que Portugal, como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida. (...)

 

 


Jorge de Sena - Excertos do discurso proferido no Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas de 1977, na Guarda, no dia 10 de junho in Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas : discursos proferidos na cidade da Guarda, durante as comemorações, nos dias 9 e 10 de Junho. Lisboa : Sec. de Estado da Comunicação Social, 1977.