Eduardo Lourenço | Extracto de Discurso PDF Versão para impressão

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Da verdadeira Guarda só me eram familiares o frio, a neve, o nevoeiro que hoje veio envolver-nos, o vento imemorial, o céu varrido, a aparência sideral que anos mais tarde Vergílio Ferreira evocará magistralmente em "Estrela Polar". Nesses oníricos anos da minha terceira classe, a Guarda, era só não ser São Pedro, a perda do ninho, o primeiro encontro com os outros. Dois anos mais tarde, entraria aqui no liceu, primeira saída do reino protegido de toda a infância que Sartre invoca em "Les Mots", e também o primeiro degrau de um percurso sem fim – o que se chama um curso, e é uma batalha incruenta para descobrir o nosso papel na vida.

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Pela idade, mas também, creio, por alguma coisa que era própria desta cidade – como a radiografia artística de Vergílio Ferreira mo confirmou -, a Guarda ficou sendo para mim uma realidade espectral. Uma espécie de Marienbad com as suas altas peanhas encimadas por bustos de personagens misteriosos como num cemitério no deserto, ou uma pequena Davos-Platz, com o seu célebre sanatório de onde se escoavam às vezes para as ruas da cidade criaturas pálidas que a atravessavam desviando-se das pessoas sãs, como fantasmas. Só mais tarde soube que era lugar de sonhos de outra espécie, desses sonhos que só as pequenas cidades concebem, sonhos de ambição política, de saber, de poder social que tanto beirão – alguns aqui presentes – ilustrarão. Menos conhecia os seus poetas, com excepção do autor de "Luar de Janeiro". Augusto Gil, um António Nobre sem pose mas também sem o seu génio, que andava, a justo título nas selectas, com a celebérrima "Balada da Neve" que parece ter deixado traços num famoso poema de Pessoa. Dos vivos, vi passar na rua, envolto em soturnidade, Nuno de Montemor, a caminho do lactário desta cidade, um autor da nossa província profunda, que evocava para um largo público católico do País, dramas e paixões do mundo eclesiástico.

 

 


Eduardo Lourenço | Extracto de Discurso proferido na Guarda, em 10 de Setembro de 1995 in Guarda livros : textos e contextos / selecção e org. António José Dias de Almeida. - Guarda : Câmara Municipal da Guarda, 2004.