ERA MISTER NOVOS CAMINHOS PDF Versão para impressão

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Reportemo-nos agora então, a datas mais recuadas, contemporâneas pouco mais ou menos daquele nosso regresso de Coimbra, fins 1º quartel deste século, ano novo de 1925.
Éramos então naquele primeiro patamar de entrada, supostos aptos já a enfrentar as realidades práticas da vida, prontos a dar início às nossas primeiras actividades úteis, após um final de curso que há pouco havíamos terminado.

Era necessário pois, abrir novos caminhos, novos rumos, e marcar o nosso lema de algo fazer e bem servir. Parece que o mesmo acaso nos quis dar então o ensejo de podermos simbolizar pela própria prática a imagem real deste nosso pensamento, assim; eis o facto: Casal de Cinza nome e sede duma das freguesias do concelho da Guarda, a nossa, e onde, como em todas as aldeias da bem portuguesa Beira-Serra pacatamente se vive, reza, canta e labuta em constantes lides campestres, esta, tinha já por aquele tempo os seus anseios com vista a alguns melhoramentos e progressos, como iremos ver.
Era dia santo de guarda, naquele 1º de Janeiro de 1925. Hora da missa conventual, centro de confraternização com Deus e com todos os paroquianos das seis anexas da dita freguesia, que por hábito e espírito religioso ali geralmente não deixam de comparecer aos seus deveres de bons cristãos. Na porta lateral da Igreja que dá para o adro, e onde o povo se aglomera, e conversa aos domingos e dias santificados, lia-se nesse dia, num grande papel, há pouco ali pregado, o seguinte anúncio.
"Convidam-se todos os homens válidos desta freguesia a reunirem-se no fim da missa, na escola primária do sexo feminino, a fim de tratar-se dum assunto de grande interesse de ordem geral e colectivo".
A.M.F.

E assim aconteceu. Surpreendidos e desejosos de saberem do que realmente se tratava, àquele local acorreram na sua quase totalidade, sem faltar o próprio pároco da freguesia, P.e Alberto Tomé Mendes, a quem havíamos comunicado já nossa intenção, porque era de facto nosso aquele anúncio ao povo da freguesia.
Aberta a sessão, assim dissemos:
"Deveis certamente ter estranhado o papel que tomei a deliberação de afixar na porta da Igreja, convidando todos os homens válidos da freguesia a reunirem-se aqui na Escola do sexo feminino, a fim de se tratar dum assunto de grande interesse de ordem geral e colectivo. Pois bem; passarei a expor-vos sem rodeios, e com toda a clareza e simplicidade, o meu sonho, neste acordar para o novo ano de 1925, sonho, que creio ser possível realizar-se inteiramente, se da vossa parte houver vontade, força e coragem. Trata-se da construção duma estrada [de Casal de Cinza para a Guarda]."
(...)
No dia 12 de Janeiro desse ano de 1925 iniciara-se os trabalhos da estrada nova, sem necessidade de engenheiros nem peritos, estrada essa, de 10 quilómetros de comprimento, através de terrenos por vezes irregulares e pedregosos, com dezenas de aquedutos a construir no seu percurso, e aterros, e muros, e trincheiras, e com todas as expropriações grátis, sem qualquer espécie de indemnização, estrada essa que em Maio desse mesmo ano era festivamente inaugurada e completamente aberta ao trânsito. Nota curiosa: Esta estrada toda ela feita assim, à custa do esforço apenas duma freguesia, composta de seis anexas, foi o primeiro exemplo em Portugal de tamanha obra sem qualquer salário, nem encargos de expropriações, nem auxílio de técnicos especializados.

António Monteiro da Fonseca

 

 

 


António Monteiro da Fonseca - Datas e factos : palestras escolares e temas vários / por A. Monteiro da Fonseca. Coimbra : [s.n.], 1963