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Subindo serra a serra, Portugal acima, Até perto da Estrela, aquela serra além, Toda branca de neve, Encontra-se uma Terra, Noutra serra também, Quase tão alta e fria como aquela, Terra que um dia um rei mandara edificar, E ali ficara então sentinela, Sempre, sempre a guardar
Do seu castelo antigo, atento e sempre em guarda, Avista-se da Estrela aos montes de Castela!... E vê-se além Trancoso, Almeida e Marofa! As penhas de Meimão, e as Fráguas e o Jarmelo! E todo um vasto mar de aldeias sertanejas, Com Igrejas... E outras terras com castelo!... Além Pinhel, Belmonte e o Sabugal; Ao fundo, do outro lado, é Celorico; A leste, em frente, a raia, a linha de fronteira, E quase a descobrir-se ao longe, o Côa, O Zêzere e o Mondego, Rios que vão ao Tejo, ao Douro, ao mar... Águas novas da serra, Sangue vivo da terra, Coração de Portugal.
E um rei de tempos idos, muito antigo, D. Sancho, o Povoador e o Fundador De terras e castelos, foi ele quem a fundou, Aquela Terra. Abalou de longada um dia até lá cima, Ao cimo do seu reino, e demorou-se.
Eis porque a Ribeirinha disse então este cantar: Ay eu coitada como vivo En gran cuydado por meu amigo Que ey alongado! Muyto me tarda O meu amigo na Guarda...
E porque não tardar na Guarda El-Rei, o seu amigo... Se ele andava talvez a edificá-la!...
E surge então no píncaro dum monte, Ali mesmo defronte ao reino de Leão Com torres e muralhas... Ela, A Feia, e Fria, e Forte, A sentinela, a Guarda no seu posto Sempre, sempre a guardar.
E aquela Terra assim, naquela serra, Foi crescendo depois, E teve heróis, poetas, sábios e cronistas, Homens da corte, nobres, magistrados, Gentes de armas que andaram nas conquistas, E eminentes doutores e prelados, Gentes estas de cuja fama e glória A história fala ainda!... E ergueram-lhe no meio a Catedral, Jóia lavrada em pedra de granito... E a Torre de Menagem, templos, monumentos! E abriram-lhe avenidas, parques e jardins... E aquela Terra feia, agora já o não é, Mas sim fidalga e nobre, hospitaleira e boa.
Cantar de Amigo, Voz do Amor!... Lamento do primeiro trovador! Talvez que a Ribeirinha fosse aquele primeiro acorde, Aquele primeiro ensaio em língua nossa, E fosse El-Rei o autor! Talvez que fosse ali naquela Terra, Nos pendores da Serra, Que em Português, Pela primeira vez Cantara Alguém o amor!
E desde então, quantos letrados e cronistas, E quantos trovadores! Ninho de Águias, aquela Terra Fria Da Balada da Neve e Luar de Janeiro A derramar profunda claridade... Solar de Augusto Gil e Rui de Pina E Montemor... Do Amor de Deus e da Terra... A Guarda é terra amiga, Pois desde cedo canta, Assim que se levanta, O seu primeiro canto, O seu Cantar de Amor. (...)

António Monteiro da Fonseca - Extracto de Cantar de Amigo in Guarda livros : textos e contextos / selecção e org. António José Dias de Almeida. - Guarda : Câmara Municipal da Guarda, 2004.
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