| Miguel Torga |
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Guarda, 25 de Fevereiro – Cá ando a dar a volta à Estrela, como uma borboleta a circundar uma luz. Pelo caminho vou olhando também a sepultura do Sortelha, em Góis, o berço de Pero da Covilhã, na dita, o lar de Pedro Álvares Cabral, em Belmonte, e a feiura forte e fria desta Guarda do passado. O circuito não finda aqui, claramente, mas é sempre aqui que eu me demoro mais, numa meditação que não tem fim. É uma introspecção do granito, uma coisa absurda e dura, que não sei clarificar. Entra nela a Sé gótica e pesada, contrafeita, a tentar subir ao céu numa ogiva, e a sentir toscos e serranos tamancos nos pés calosos, que não podem com tanta altura. A Idade-Média a convidar tardiamente as fragas beiroas a um êxtase universal, e elas, atarracadas e maciças, com medo de uma tal aventura. Enfim, coisas minhas, que dão à própria pedra uma alma, uma fala, uma intenção, um destino, - e fazem com que eu não conceba de mármore um canastro de guardar milhão.
Miguel Torga - Extracto de Diário III in Guarda livros : textos e contextos / selecção e org. António José Dias de Almeida. - Guarda : Câmara Municipal da Guarda, 2004. |



