Pinharanda Gomes II PDF Versão para impressão

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Um compêndio de filosofia positiva

Em 1890 já havia duas Guardas. Elas tinham-se esboçado e construído desde os remotos anos de 1860, quando a febre da imprensa invadiu o distrito e, sobretudo, a capital diocesana, onde, num determinado momento se iniciou (1904) a publicação do semanário A Guarda (que tirava edições com títulos diferentes para Braga, Bragança, Santarém, Lisboa, Barcelos, Castelo Branco) e da qual Afonso Costa dizia que a República não ficaria consolidada enquanto A Guarda não fosse calada.

Muitos foram os processos judiciais, os encerramentos do semanário, as perseguições ao bispo (D. Manuel Vieira de Matos) aos redactores (Artur Bivar, Joaquim Diniz da Fonseca) e aos colaboradores, incluindo o editor Luís de Sousa Coito, o "Luizinho da Véritas", pai do jornalista João Coito, que também começou a sua carreira jornalística no jornal liceal A Cabra, que se publicou nos anos 40, era, nessa altura, professor de física no liceu, o filósofo F. Pinho de Almeida, autor de A Filosofia no Século da Ciência.
A Guarda constituía um fator de unificação numa cidade profundamente dividida entre os homens do Centro Progressista e os homens do Partido Regenerador. Enquanto o Partido Progressista se limitou a fazer a vida com um semanário, que durou quase 70 anos, Distrito da Guarda, que Alfredo Pimenta, (na sua fase republicana), dirigiu, os Regeneradores, fontistas, eram menos constantes, e, com certa frequência, acabaram com uns títulos e começaram a publicar outros, sem nada que se alterasse, a não ser o título. Abre-se excepção para o semanário O Povo, de Júlio Ribeiro, depois fundador e cabeça do portuense A Montanha, porque, regenerador, O Povo é uma das mais belas e combativas colecções de jornalismo que o nosso século XIX viu. Claro, O Povo era júlio Ribeiro, e vice-versa.
Ora, em 1889, o semanário regenerador intitulava-se A Civilisação e opunha-se, como é óbvio, ao Districto, displicentemente tratado por "gazeta da torre", porque a redacção funcionava numa casita de 1º andar, junto à Torre dos Ferreiros, nobre testemunho da grandiosa muralha montanhesa que ficara a rodear a cidade.
Os centros partidários locais apoiavam-se geralmente em individualidades vindas de outras terras; e mesmo o Districto teve o seu momento maior na época do Pe. Dr. Francisco dos Prazeres que viera de Vila Nova de Ourém, via Coimbra, apenas para dar vida ao Centro Progressista. Com efeito, tendo recusado a mitra de Évora, jamais conseguiu a conezia na Sé da Guarda, muito embora o seu nome ficasse ligado à fundação do Hospital da Misericórdia. Simplesmente, nessa altura, ainda que fossem anti-jesuítas, os regeneradores dispunham de maior influência no perturbado ambiente eclesial da diocese.

 

 

 


GOMES, Jesué Pinharanda, 1939 - A Guarda culta : imagens de literatura, música, poesia e religião. Guarda : Instituto Politécnico, 2002. 334, [5] p : il ; 24 cm. (Politécnico da Guarda). Contém bibliografia
PT 184663/02
ISBN 972-861-02-X