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São muitos os historiadores da Sé Catedral da Guarda. Entre os que mais contribuíram para a elucidação dos principais aspetos e singularidades da sua longa vida, contam-se Adriano Vasco Rodrigues, B. Pina da Fonseca, Armando de Lucena, Virgílio Afonso e Pinharanda Gomes, sem esquecer os críticos e comentadores de João de Ruão como autor do celebérrimo retábulo em pedra de Ançã, e que é a obra-prima da catedral.
Levanta-se a dura e rígida Sé Catedral da Guarda, monumento granítico de singular força e carácter, na Praça Velha. Em frente, num espaço aberto e em declive, ergue-se a estátua de D. Sancho I, fundador da cidade e iniciador da construção de uma catedral, uma vez que foi o monarca quem transferiu a sede episcopal egitaniense para a Guarda. O primeiro templo parece ter sido começado a construir antes de 1202. Pinharanda Gomes, autor da História da Diocese da Guarda, Braga, 1981 citando Pina da Fonseca (página 421) regista que D. Martinho fez com el-rei D. Afonso, o Gordo, (...) que acabasse a dita Sé e lhe fez a inovação de S. Gens; a qual esteve ali pouco tempo e foi mandada para outro sítio capaz; e se fez uma formosa Sé, que esteve até ao tempo de el-Rei D. Fernando, que por causa das guerras a mandou mudar. A cronologia destas edificações que se sucederam até ao aparecimento, já tardio, do atual edifício, respeita, até certo ponto, o próprio crescimento da cidade, desde as construções incipientes e praticamente provisórias que constituíram o primitivo burgo, até aos primeiros sintomas de estruturação urbana, com centros vitais, civis, religiosos e comerciais. A catedral deambula por locais diversos até vir a ocupar o centro da cidade, em torno do qual cresce e se desenvolve o aglomerado que durante muito tempo manteve crispadas feições medievais, de que ainda hoje conserva alguns vestígios pitorescos (A. Vasco Rodrigues, Monografia Artística da Guarda, Guarda, 1977). A catedral de D. Afonso teria sido uma pequena igreja romântica e enquanto as obras não se concluíram, mandou erigir uma capela dedicada a Santo Ildefonso, capela essa que serviu de casa do Cabido e de Sé (Pinharanda Gomes, ob. cit. pág. 422). A esta edificação seguiu-se outra, fora de portas, na zona da Torre dos Ferreiros, iniciada a sua construção em tempos de D. Sancho II e concluída no reinado de D. Pedro I. Subsiste até ao reinado de D. Fernando. Por motivos estratégicos mandou este rei arrasar a catedral (documento de 1374) e enquanto não foi construído o novo edifício, serviu de Sé a igreja de Nossa Senhora do Mercado. Mas a catedral, onde se encontra, só veio a ser começada a construir no reinado de D. João I. Os alicerces foram lançados em 1390-1396 e as obras prosseguiram com tal lentidão que só terminaram 150 anos mais tarde, em 1540, embora o edifício seja dado por construído entre 1504 e 1517, época em que se completam as torres, o pórtico, as abóbadas e o coroamento. Pinharanda Gomes enumera as diversas catedrais da diocese egitaniense, desde a Sé da Egitânia até à Sé Nova, a que hoje se mantém, quase sem alterações. Pouco se sabe dos seus construtores e arquitetos, conhecendo-se, porém, os nomes dos empreiteiros em 1516, isto é, Pedro Henriques e Filipe Henriques, filhos de Mateus Fernandes, mestre-de-obras do mosteiro da Batalha (P. Gomes, ob. cit. pág. 245). Vasco Rodrigues e Rosendo Carvalheira, citados por P. Gomes, admitem que a planta do templo possa ter sido gizada na escola artística de Afonso Domingues ou de mestre Huguet, dado o estilo perpendicular inglês patente na variante gótica do estilo da Sé guardense (P. Gomes, id. pág. 425). As principais adulterações do grande edifício de granito foram feitas nos séculos XVII e XVIII e a maioria apeadas no último quartel do século XIX. (...)

João Palma-Ferreira in A Guarda ilustrada : breve panorama dos escritores do distrito da Guarda / J. Pinharanda Gomes. - Braga : Pax, 1988.
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