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(...) Na sequência da Guerra, a Guarda passou a ser invadida por inúmeros refugiados, que aqui chegavam a caminho de Lisboa na esperança de partir para as Américas. A Guarda estava profundamente carenciada de equipamentos hoteleiros.
Não havia o Hotel Turismo e as duas ou três pensões existentes eram insuficientes para acolher aquela gente exaustada. Muitos foram recebidos, gratuitamente, em casas particulares, distinguindo-se a solidariedade dos estudantes, que cediam aos casais seus quartos e iam dormir no chão, em colchões, postos nas salas de jantar das casas onde estavam aboletados ao farnel. (...) Tempos depois do início da Guerra apareceu em Portugal a febre do volfrâmio. O povo escavava furnas, abria galerias, ganhava rapidamente dinheiro com aquele material indispensável às blindagens. Na Guarda abriram duas agências, uma inglesa e outra alemã, destinadas à compra do minério. Os pesquisadores tão depressa recebiam como gastavam o dinheiro. Diariamente havia anedotas sobre os seus gastos... Na Guarda toda a gente se conhecia, pois não era muito populosa. Naquele tempo, os Invernos eram terrivelmente frios e secos, só suavizando após a arborização da Serra da Estrela ter começado a resultar. Nas casas havia normalmente só uma braseira destinada às pessoas idosas. Os jovens para se protegerem do frio, estudavam na cama, no meio de cobertores de papa, fabricados nos Trinta. Frequentemente as ruas da cidade eram percorridas por aldeões do Mondego, vestidos de escuro, ou de bordel acastanhado, com o garruço preto na cabeça, tocando os burricos carregados de sacos e apregoando: - Carvão de choça! – Carvão de estiva (esteva)! – Quem merca a carqueja! Os mercadores mais abastados, que vinham aos mercados, normalmente os do Sabugal ou da Raia, usavam safões e cavalgavam machos ou mulas. Quase todas as casas cozinhavam em fogões de ferro ou de tijolo. Uma multidão de lavadeiras vinha de Alfarazes, em certos dias da semana, trazer ou buscar trouxas de roupa para lavar na Ribeira. Durante gerações mantiveram-se lavadeiras da mesma família e clientes também das famílias da Cidade, estabelecendo-se laços de amizade. As raparigas novas das aldeias, que vinham à Guarda a pé, caminhavam descalças e só à entrada da Cidade metiam os pés nos chinelos, ou nas tamancas. Naquele tempo ninguém sonhava com máquinas de lavar a roupa, ou com fogões a gás ou elétricos. Quase todos os estudantes usavam capa e batina. As melhores, as que mais protegiam do frio, eram de lã. Apesar dos esforços feitos pela Mocidade Portuguesa para impor o uso de farda, nunca conseguiram na Guarda banir as tradições da capa e batina.
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Nos primeiros anos da Década de 40, os feirantes e mercadores que procuravam a Guarda, preferiam pequenas camionetas, normalmente FORD-V8 a que punham um nome, em lugar bem visível na cabine. Lembro-me: A Vaidosinha; outro: Não te ligo. E ainda estes: És a minha desgraça ou Andorinha do Vale. Nos anos quarenta ainda havia vendedeiras no Terreiro dos Ovos, em frente da Misericórdia. O arranjo daquele largo foi feito no início dos anos cinquenta e para ali deslocaram um cruzeiro que estava no Bonfim. Nas ruas ouviam-se com frequência os amola-tesouras anunciando-se com a sua típica gaita de beiços e a sua roda aguçadoura. O leite era distribuído pelas casas por vendedeiras depois de analisado nos Serviços de Veterinária e vertido em cântaros de lata selados na tampa com selo de chumbo, para defesa do consumidor. Nos arrabaldes havia várias porcinas e uma vacaria. Os proprietários dos porcos, normalmente gente modesta, recolhiam em pequenos carros de mão os caldeiros de vianda com restos de comida, que sobravam aos moradores da Cidade. Era uma interessante forma de economia e de solidariedade, pois estes restos eram cedidos gratuitamente e ajudavam famílias e pobres. O Poço do Gado era um lugar reservado às meretrizes, onde os adultos solteiros podiam entrar. Semanalmente víamos estas mulheres exageradamente pintadas, em frente de Esquadra da Polícia, aguardando vez para irem à inspeção médica. Durante os anos que frequentei o Liceu da Guarda dominava o espectro da Guerra. (...)

Adriano Vasco Rodrigues in Praça Velha – Revista Cultural, ano III, n.º 6, 1.ª série, Câmara Municipal da Guarda, Novembro, 1999, págs. 10-12, 14.
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