Manuel Poppe in Memórias PDF Versão para impressão

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Aquela gente – a tal gente crescida – era ferozmente conservadora e, se não usavam todos botas de elástico, no fim e ao cabo, não viam para além, delas, Poderiam, até, nem ser salazaristas – "da situação", como se dizia; mas o espírito não ultrapassava os limites do equilíbrio medíocre e criminosos do homem de Santa Comba.

E talvez esteja aí uma das explicações para a estabilidade do "regime dos brandos costumes": a imensa e trágica apatia da população, a sua falta de exigência espiritual e moral. Claro que não só os professores davam o exemplo de tal pobreza interior (e encontrei-os, na Guarda, muito diferentes: por exemplo: no colégio, o Coronel Orlindo José de Carvalho, o Dr. Bernardo, trânsfugas da oposição ao regime, que o Cónego Quintalo, o diretor, aceitara proteger; no Liceu, o Dr. Carlos Costa, O Dr. Pechincha – que, estranhíssimo, imprevisível, surrealista, por si só justificava uma novela, recordo-me bem de o ver a passear com Villaret, quando este apresentou, no Cine-teatro o divulgadíssimo espetáculo Esta Noite Choveu Prata: esbracejava, a melena caída para a cara, veemente, a desabafar, encantando, e o artista deixava-o falar, sorrindo, condescendente e amigamente).
Toda a burguesia, mais ou menos instalada (menos que mais) exibiam a trágica resignação. E a Igreja abençoava-os. E há que ressalvar duas personalidades (não coincidentes nos credos): o Dr. João Gomes e o Dr. Bigotte, arejados e cultos. Diga-se de passagem que, neles, ao tempo, eu apreciava, sobretudo, as filhas, duas muito belas rapariguinhas.

(...)

E vou buscar ao Diário:
"Telavive, 3 de Janeiro de 2001,
Agora que me ocupam as Memórias dos anos da Guarda, chega-me, enviado graças à gentileza do Américo Rodrigues (e do Vereador da Cultura do Município, Virgílio Edgar Garcia Bento), um livro: A Guarda Formosa na Primeira Metade do Século XX (edição no âmbito das comemorações do VIII centenário da cidade da Guarda). É uma obra muito bela e importante, coordenada por Jaime Ferreira e apresentada por Maria do Carmo Borges e Jaime Alberto Couto Ferreira. Trouxe-me de volta ao mundo! Lá encontro, assinado por Barroco Esperança, aquilo que presumo que seja um discurso: Aqui viveu/LIBÂNIA/ (meretriz filantropa)/ Homenagem de três gerações de estudantes. E data-o Barroco Esperança de Coimbra, Restaurante Neptuno, 26 de Maio de 2000. Certamente, trata-se da vibrante evocação – e é-o! – de que me falou o José Pires Sanches. Não alterei, porém aquilo que escrevi atrás, nem as palavras que atribuí ao celebrante – imaginei outros adjetivos, que, afinal, vão dar ao mesmo: comprovam, agora,
estas, a ternura e a gratidão que nos ficou... O que surpreende – agradavelmente – é que os curadores e editores tenham tido a coragem de deixar, para a História, o poético e emocionante apontamento!"
Bom sinal! Um vento diferente sopra no alto monte da sagrada Beira... E repito o verso de Augusto Gil, com prazer sensual: traz-me de volta a luz e o frio, os cheiros e o ar seco e cortante da Guarda e eu posso imaginá-lo sentado à porta do barbeiro, que seria, provavelmente, o meu, outro porém, em frente à Cristal, que ainda não existia – e deixou de existir -, na Rua do Comércio. O mesmo livro precioso, A Guarda Formosa, confirma-me o relógio, o Zenith (o meu relógio de pulso continua a ser, também, Zenith, que me ofereceu, em 1951, o irmão da Beatriz, Eurico Henriques Cardoso, proprietário de uma papelaria, na Rua de Santa Marta, em Lisboa), objeto reproduzido na obra, pertencia à Ourivesaria Cunha e a barbearia, ao Sr. Maurício. Sim, talvez fosse esse, em 1953 (ou um ajudante), que não me reconheceu já nos entrados anos setenta. E obriga-me a recordar momentos especiais, vividos em 1959.

 

 


POPPE, Manuel, 1938 - Memórias, José Régio e outros escritores : ensaio de autobiografia. 1ª ed. Vila Nova de Famalicão : Quasi : Círculo Católico D'Operários de Vila do Conde, 2001. 310, [7] p ; 22 cm. (Espaço do invisível ; 4)
PT 169891/01
ISBN 972-8632-38-X : Oferta