Na sagrada beira PDF Versão para impressão

30788A Guarda contaria então (finais de 40, princípios de 50) uns dez mil habitantes: o liceu, o seminário, o colégio de padres (o Rocha), o quartel, o sanatório, o tribunal. Ultra-conservadora, fechada, atenta à correção dos desvios, à rotina cinzenta, caiu-me em cima e apertou-me. “De pequenino se torce o pepino”, diz o povo. Talvez; mas há pepinos que custam a torcer e há-os que nunca se deixam torcer…

Na Guarda daquele tempo, a cultura limitava-se à Biblioteca Municipal e à papelaria do Sr. Casimiro. Graças a ele, tive acesso, sem que ninguém me aconselhasse, às primeiras leituras de Thomas Mann, Proust, Steinbeck, Gogol, Somerset, Maugham, Romain Rolland; e de André Gide para escândalo dos meus professores do Rocha.

 

Li-os nas saudosas colecções “Miniatura” e “Os livros das Três Abelhas”, nos “Livre de Poche”.

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Na Biblioteca Municipal, uma outra figura singular, extraordinária naquele meio estreito, o Padre Pôpo, o director, ajudou-me, deixando-me levar para casa os autores que queria, não cuidando da minha idade – descuido precioso –, fechando os olhos e, até mesmo, estimulando a minha curiosidade e a minha sede de entrar no mundo mítico da literatura. Quanto me apoiou a sua compreensão! Li Tolstoi, Feodor Sologub (A Loucura de Peredonov, na Inquérito), Raúl Brandão, Alexandre Dumas (A Rainha Margot, que meu pai me escolheu, para ajudar a passar a convalescença de uma pequena intervenção cirúrgica), os primeiros romances de Dostoievski.

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Havia, ainda, o Cine-teatro. Ali pude ver, entre outras obras, Europa 51, de Rossellini, Luzes da Ribalta, de Chaplin, O Terceiro Homem, de Carol Reed, La Carrozza d’Oro, de Jean Renoir, no meio de uns dramalhões com a bela e doce Maria Schell, que punha em pranto a plateia e me encheu os primeiros sonhos da adolescência, ou dos melodramas com o galã de serviço, Amedeo Nazzari a apostrofar a filha apaixonada: “Vatene donna, questa casa non è più la tua!” (a primeira frase que aprendi a dizer em italiano).


A obra-prima de Renoir merece, também, um aparte, que ajude a compreender o mundo em que vivia: ao intervalo – os filmes tinham um intervalo, eu saí alvoroçado, entusiasmado, certo de assistir a um espetáculo superior. Certo? Desconfiado – porque tudo aquilo ia contra a mentalidade da cidade, contra os princípios que tentavam impor-me. E espreitei em volta, à procura de apoio – de solidariedade. Qual apoio, qual solidariedade! Os comentários eram negativos e de troça. Tive de  arranjar força para não desistir da minha admiração. E fui começando a aprender a ter opiniões próprias, a arriscar-me a não compartilhar as de outros. Gide, ao longo da vida, reforçaria a minha ideia de que o “consenso” é, sempre, perigoso e redutor – e, as mais das vezes, é consentimento e desistência, medo e covardia.

No Cine-teatro ri, com Vasco Santana, no Daqui fala o morto e ouvi os monólogos intermináveis de Alves Cunha, numa peça triste. (…). Devo reconhecer, no entanto, que a programação do Cine-teatro não era nada má. O proprietário, Júlio Xavier, distinguia-se aliás, naquele mundo insípido (e, no entanto, cheio de subterrâneos onde fervia a vida), pelo carácter original e irreverente.

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Aquela gente – a tal gente crescida – era ferozmente conservadora e, se não usavam todos botas de elástico, no fim e ao cabo, não viam para além, delas, Poderiam, até, nem ser salazaristas – “da situação”, como se dizia; mas o espírito não ultrapassava os limites do equilíbrio medíocre e criminosos do homem de Santa Comba. E talvez esteja aí uma das explicações para a estabilidade do “regime dos brandos costumes”: a imensa e trágica apatia da população, a sua falta de exigência espiritual e moral. Claro que não só os professores davam o exemplo de tal pobreza interior (e encontrei-os, na Guarda, muito diferentes: por exemplo: no colégio, o Coronel Orlindo José de Carvalho, o Dr. Bernardo, trânsfugas da oposição ao regime, que o Cónego Quintalo, o diretor, aceitara proteger; no Liceu, o Dr. Carlos Costa, O Dr. Pechincha – que, estranhíssimo, imprevisível, surrealista, por si só justificava uma novela, recordo-me bem de o ver a passear com Villaret, quando este apresentou, no Cine-teatro o divulgadíssimo espetáculo Esta Noite Choveu Prata: esbracejava, a melena caída para a cara, veemente, a desabafar, encantando, e o artista deixava-o falar, sorrindo, condescendente e amigamente).

Toda a burguesia, mais ou menos instalada (menos que mais) exibiam a trágica resignação. E a Igreja abençoava-os. E há que ressalvar duas personalidades (não coincidentes nos credos): o Dr. João Gomes e o Dr. Bigotte, arejados e cultos. Diga-se de passagem que, neles, ao tempo, eu apreciava, sobretudo, as filhas, duas muito belas rapariguinhas.

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            E vou buscar ao Diário:

            “Telavive, 3 de Janeiro de 2001,

Agora que me ocupam as Memórias dos anos da Guarda, chega-me, enviado graças à gentileza do Américo Rodrigues (e do Vereador da Cultura do Município, Virgílio Edgar Garcia Bento), um livro: A Guarda Formosa na Primeira Metade do Século XX (edição no âmbito das comemorações do VIII centenário da cidade da Guarda). É uma obra muito bela e importante, coordenada por Jaime Ferreira e apresentada por Maria do Carmo Borges e Jaime Alberto Couto Ferreira. Trouxe-me de volta ao mundo! Lá encontro, assinado por Barroco Esperança, aquilo que presumo que seja um discurso: Aqui viveu/LIBÂNIA/ (meretriz filantropa)/ Homenagem de três gerações de estudantes. E data-o Barroco Esperança de Coimbra, Restaurante Neptuno, 26 de Maio de 2000. Certamente, trata-se da vibrante evocação – e é-o! – de que me falou o José Pires Sanches. Não alterei, porém aquilo que escrevi atrás, nem as palavras que atribuí ao celebrante – imaginei outros adjetivos, que, afinal, vão dar ao mesmo: comprovam, agora,

estas, a ternura e a gratidão que nos ficou… O que surpreende – agradavelmente – é que os curadores e editores tenham tido a coragem de deixar, para a História, o poético e emocionante apontamento!”

Bom sinal! Um vento diferente sopra no alto monte da sagrada Beira… E repito o verso de Augusto Gil, com prazer sensual: traz-me de volta a luz e o frio, os cheiros e o ar seco e cortante da Guarda e eu posso imaginá-lo sentado à porta do barbeiro, que seria, provavelmente, o meu, outro porém, em frente à Cristal, que ainda não existia – e deixou de existir -, na Rua do Comércio. O mesmo livro precioso, A Guarda Formosa, confirma-me o relógio, o Zenith (o meu relógio de pulso continua a ser, também, Zenith, que me ofereceu, em 1951, o irmão da Beatriz, Eurico Henriques Cardoso, proprietário de uma papelaria, na Rua de Santa Marta, em Lisboa), objeto reproduzido na obra, pertencia à Ourivesaria Cunha e a barbearia, ao Sr. Maurício. Sim, talvez fosse esse, em 1953 (ou um ajudante), que não me reconheceu já nos entrados anos setenta. E obriga-me a recordar momentos especiais, vividos em 1959.

 

 


Manuel Poppe in Memórias, José Régio e Outros Escritores: Ensaio de Autobiografia. Edições Quase e Círculo Católico de Vila do Conde, 2001