|

6 – Junho (quinta)
Vamos à Guarda para eu orar. Aceitei o convite de um grupo de estagiários da Escola Secundária, através da Marie France que é viúva de um primo meu. Porque de caminho revejo minha irmã que não vejo há uns três anos. Como estarás tu? Vamos no carro do meu cunhado João que a toda a força nos quer levar passeio. A oratória é amanhã, ficamos hoje em Gouveia.
Bagagem depositada na Pensão Estrela e imediatamente vamos a Melo. Chegamos pelas cinco horas e mais do que nunca sinto um ar de estranheza que me separa daqui. A aldeia ergueu-se como um aspecto de uma era remota com os sinais de velhice e de uma espécie de loucura. Quando chegamos a casa tocamos à porta. O Zé estranha que não tivéssemos logo entrado – porque é que não entrámos? Não sei. Não somos – não sou eu mesmo – dali. Vêm à porta o Zé, a Filomena com o miúdo, o Alexandre, já espigado nos seus sete anos e extremamente desenvolto. Quero ver a mana mas não tenho pressa. No fundo porque receio o espetáculo da sua degradação. Mas vamos enfim. Está na cama donde raro sai para uma cadeira. Já não move senão as mãos que agita febrilmente com frequência. Aproximo-me dela, debruço-me, falo-lhe. Mas é preciso mover-lhe a cabeça para orientar o olhar. E olha-me, sorri. Dir-se-ia ter noção de que estou ali. Sorri inocente, o olhar vivo a perscrutar, no limite de ir fazer qualquer coisa que não diz. - Sou o «mão» - digo-lhe, porque foi sempre assim que me tratou. Ela sorri, olha sempre ou aperta os maxilares num esforço ininteligível. Às vezes murmura sons que não entendo. Ou diz «não» ou qualquer outro monossílabo sem significação. Estamos ali algum tempo, o Zé explica-nos o seu comportamento habitual, a Regina aproxima-se também, tenta chamar-lhe a atenção. Ela sorri sempre com um ar inocente de quem está integrada no convívio mas nada significa nada. À hora de jantar vamos ao restaurante do Januário, que fica a alguns quilómetros na estrada nacional. Depois vamos à pensão deixar o meu cunhado para se deitar cedo como é seu hábito, depois que ficou viúvo. E nós vamos a Melo, a casa do meu irmão César passar o serão. Conversamos até perto da meia-noite, mas a nossa irmã está ausente da conversa como motivo que já não é conversável. O Zé vai levar-nos de novo à pensão. E ali ficamos para partir amanhã para a Guarda.

Vergílio Ferreira - Extrato de Conta-Corrente 5 in Antologia de escritores da Guarda : século XII a XX / José Manuel Trigo Mota da Romana. - Guarda : Câmara Municipal, 2003.
|