Célio Rolinho Pires II | Extratos de Por Terras de Aquém Cima-Coa PDF Versão para impressão

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A Beira de ao pé do Mar não tem nada a ver com esta outra a que eu pertenço e que está para cá das montanhas ou serranias que fazem a ossatura dorsal do meu país. Por isso lhe chamam a Beira do Interior ou (d'aquém) da Serra ou também Terra Fria. Esta é a verdadeira Beira, penso eu, a Terra Vera, que mais a Sul ainda não perdeu o nome ancestral e se entranha pela Serra de Gredos adentro – a Região de La Vera, da Veira ou Beira! Que mais faz?
Terra de Pedras! Áspera, severa, sombria, vetusta, diria mesmo selvagem, mantém ainda, e apesar de tudo, a puridade que lhe vem dos tempos bíblicos, do tempo da Criação do Mundo. Faz-se anunciar a quem chega em perfumes delicados e campestres de bela-luz e rosmaninho, trevos subterrâneos e serradelas que, por uma questão de pudor e de vergonha, se escondem às visitas mas enchem abundantemente o seu caminho de aromas discretos e inigualáveis em qualquer outra parte do planeta. Têm dúvidas? Partam à descoberta!
Há até quem lhe chame feia. Talvez por causa da afronta do granito duro, musguento e sombrio! Como se a Beleza tivesse alguma coisa a ver com certos figurinos modernos que se baloiçam e trepidam para nós nas concorridas "passerelles" de um mundo que escancarou a céu aberto o ventre e a alma como se já não houvesse nada a esconder em nome da sanidade do olhar e da tal virgindade original que o poeta reclama para todos os olhos que um dia venham a ver a sua Terra: é que, só esses estarão autorizados, porque aptos, à contemplação do inefável que é oculto porque imanente e muito para lá da roupagem das coisas. A Beleza nasce do coração da gente quando a gente se olha e se quer bem!
Esta Terra, esta Beira a que eu pertenço, alguém, não sei quem nem quando, terá feito dela modelo e paradigma e, por abrangência e espécie de contágio, estou em crer, deram o seu nome a toda a terra próxima e à sua beira: a que se estende até ao Mar e a todo esse espaço que toca no Douro, a norte, e no Tejo, a sul.
Da minha casa vê-se a Espanha que, lá ao longe, para as bandas do sol nascente, sempre foi para mim, apenas e só, aquela gigantesca mancha escura e disforme que correndo se alonga e esbate, Península adentro, dividindo-a em duas grandes metades: o Norte cristão e o Sul arábico ou sarraceno. É a grande Meseta Ibérica pela qual se estende a nossa humilde Malcata e cujos picos das Mesas, da Xalma e da Gata, se alvejam de neve no Outono, são prenúncio de Inverno rigoroso que aí vem. É que, por aqui, também o frio, irmão do vento, é meio espanhol.
Nasci, assim, à ilharga, a desbanda e do lado de cá da Coa. Não muito longe das suas nascentes. Da Coa, disse, sim, porque o Coa para estas gentes só há muito pouco tempo é que é rio e portanto de género masculino. Na lhaneza e na simplicidade das gentes ribeirinhas, o Coa não passava de uma ribeira um pouco maior que as outras. Porque havia então de ter um estatuto diferente se os cursos de água que o fazem, Aluados, Amarelos, Pias, Semideiro, Freixial, não passam de simples ribeiras?
Sou pois de Aquém Cima-Coa.
(...)

 

 



Célio Rolinho Pires | Extratos de Por Terras de Aquém Cima-Coa : a Guarda no caminho do Estremo : forais e costumes (Guarda, Vila do Touro, Sortelha) / Célio Rolinho Pires. - Pêga : Célio Rolinho Pires, 2004.