Natureza e arte PDF Versão para impressão

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A natureza e a Arte andam de mãos dadas.
A natureza é essência; a arte é acidente. A natureza fornece a matéria; a Arte dá-lhe a forma. Uma condiciona a outra e as duas completam-se.
Para compreendermos qualquer movimento artístico, por mais insignificante que nos pareça, precisamos enquadrá-lo no seu ambiente próprio. A arquitetura pesada e severa da cidade da Guarda está plenamente de acordo com a paisagem natural que a envolve.

A Guarda levanta-se numa região de alta montanha. Os alicerces do seu castelo foram abertos a 1059 m de altitude, num dos contrafortes da Serra da Estrela, dominando vastíssimo horizonte. A serra triste e nostálgica forneceu o granito cinzento que o homem empregou nas construções, que humanizaram a terra. A arte ressentiu-se da dureza agreste dos vendavais e originou obras pesadas e sólidas como as montanhas para sobreviver das inclemências do tempo. A própria natureza forneceu um material de construção duro e difícil de destruir.
A pobreza vegetal da serra não deu ao artista, elementos decorativos de grande inspiração. O ex-libris da cidade, a catedral, está feito para se opor às intempéries. Frisos, molduras, pináculos e gárgulas, parecendo puramente decorativos, foram ideados ara evitar, no templo, a infiltração das águas do desgelo e, ainda, aumentar a resistência contra os ventos ciclónicos. Uma vez mais a Arte acompanhou aqui a natureza...

(...)

Dentro da torre há três portas, que, quando fechadas, a tornavam inexpugnável. Em frente do nicho do senhor dos Aflitos existe a porta do meio, que é das únicas que fechavam por guilhotina em Portugal. Está bem visível o vão por onde descia a porta, que devia ser de ferro.
Quase todas as cantarias desta torre são sigladas. No alto está instalado o observatório meteorológico. Desta torre disfruta-se um vasto panorama.
Na comunicação para a Rua da Torre existe um nicho onde se devia ter venerado uma imagem sacra. Junto desta porta, à direita, há uma taberna de D. Jaime, mencionada por Tomás Ribeiro no seu poema.
O padre Cardoso diz no «Manuscrito» a propósito da Guarda:
... «é esta cidade murada de muros de cantaria; tem castelo com seu reduto e cisternas; há nos muros cinco portas, que dão serventia à cidade, quatro largas e uma pequena.
«Além da Torre do Castelo mais a que serve de mirante às freiras, junto da qual está uma porta que chamam Porta Nova pelo motivo de haver junto dela uma antiga que chamavam da Covilhã, que se tapou com a torre que se fez em tempo de D. Fernando com a Parede da Sé Velha demolida».
Tem a Torre dos Ferreiros, feita em grande fortaleza, onde se acha a porta do mesmo nome; mais adiante tem a porta chamada da Erva e para a parte norte a Torre Velha e junto dela uma porta pequena; e continuando o muro – que foi obra de D. Dinis – de norte a poente tem a chamada Porta d'El Rei e daí vai continuando a muralha até findar no Castelo.

 

 

 

 


Adriano Vasco Rodrigues - Monografia artística da Guarda / Adriano Vasco Rodrigues. - 3ª ed. - Guarda : Câmara Municipal, 1984.