S. JOÃO Baptista (Página de um livro de memórias) PDF Versão para impressão

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É de S. João um santo da minha predileta devoção. A ele e á comemoração do seu dia me ligam saudosas lembranças de meninice.
Eu vejo-o ainda á cabeceira do meu leito de menino, com seu velo branco a revesti-lo, seu cordeirinho simbólico, sua cruz de canas, a pequenina mão espalmada sobre o peito imaculado, os olhos em êxtase contemplando Deus... Dante dessa estampa adorável, cópia imperfeita do enternecido original do museu de Madrid, me prosternei anos inocentes, sob a carinhosa assistência de minha mãe, á hora de dormir, persignando-me, engrolando padre-nossos e ave-marias, a cair de sono, após um dia inteiro de brincadeira, ingerindo o leite migado que eu sorvia de olhos fechados, maquinalmente como rezava...

Depois... o S. João da minha terra, que já não é uma imagem mas um milhão delas: as cerejas, as ginjas e as papoilas desse lindo mês; e para o meu entusiasmo de então, acima de tudo, nas vésperas e no dia da feira, os lumes de cores e os balões venezianos; as barracas dos fantoches; as violas de cordas de arame de Vila Nova de Tázem, pintalgadas; os pífaros, as ocarinas de barro e os adufes árabes, os jumentinhos mamões que eu via passar a caminho do mercado, atrás das mães, pulando, á solta, cobertos de poeira, de moscas e de sol...
Como por toda a parte, queimava-se em louvor do santo, nessa noite, nos vários pontos da cidade, a bela-luz e o rosmaninho das fogueiras. Ao santo se aludia em canções populares de sabor regionalista, pois cada região, ou mesmo cada terra, possui um S. João muito particular:

 

S. João perdeu a capa
No caminho de Pinhel,
Ajudai-vos raparigas,
Fazei-lhe outra de papel...

 

E o bom do santo, que perdeu não a capa mas a cabeça na Judeia, em holocausto aos histéricos caprichos duma princesa dançarina ainda hoje serve de aso a diversões pagãs, e em memória do seu martírio tantas moças tostam e perfumam lascivamente no fogo dos rosmaninhos os corpos seminus...

Nas vésperas do dia 24 de Junho, noite e madrugada, é contínuo o formigueiro dos feirantes, a pé, a cavalo, em carroças e em carros de bois, tropeçando nos calhaus soltos dos caminhos impérvios, ou batendo o macadame das estradas poeirentas e brancas.
Homens, mulheres e animais, á mistura, aos magotes, empreendem sob a luz da lua ou nas trevas da noite cerrada, a lenta escalada do monte, ao cimo do qual se enxerga de muitas léguas em redor a almedina da antiga cidade que demandam.
Para os lados do oriente congestiona-se o céu no arrebol da aurora, prenunciando um dia abafadiço. Corre um frémito de brisa matutina no vasto dorso das searas fulvas.
Orvalhadas, as espigas do pão desapendoado beijam cristãmente nessa manhã sagrada, prometendo aos homens desavindos um ano de paz, de amor e de abundância...
A cidade, invadida desde o amanhecer pela maré dos forasteiros, trescala a mil odores nauseabundos: a vinho azedo, a suor humano, a peixe frito, a coiro e a excremento de animais. A algazarra, a gritaria da gente do povo, o tropear das cavalgaduras, o mugido dos almalhos, o som vibrante e agudo dos apitos e sarabatanas, o som metálico das cornetas e ferrinhos, o som languido e gemente dos harmónios, o das gaitinhas, dos realejos, dos berimbaus, - tudo isso se confunde e entrechoca e embrulha num estardalhaço ensurdecedor e infernal!
Á tarde, após a vazante, quando o mercado declina e grande parte daquela multidão se escoa de novo pelos caminhos suburbanos, na debandada, passada a hora do maior calor e do aperto, a população da cidade sai de casa – a ver a feira. Mas a feira, a autêntica, a verdadeira feira terminou – como uma batalha campal! Aquilo agora são as sarandalhas que a gente citadina, tranquila e curiosa, pacatamente vai admirar.
Das pessoas e coisas de fora ficou apenas por mais três dias o que é de longe ou mete grandes impedimentos: são as varinas de Aveiro e de imundo; são os ciganos cor de chocolate (a gulodice favorita que eles chamam callardó) que trazem asnos lazarentos, roubam crianças para fabricarem óleo humano e usam na faixa a navalha afiada, a churi, pronta para as asnegas; são os empresários das vistas, do pim-pam-pum, do tiro ao alvo, do ratatau; são os tendeiros da louça de barro de Paranhos, de Idanha-a-Nova, de Coimbra; do calçado de Viseu; dos chapéus de palha de Fafe, etc.

 

 


PATRÍCIO, Ladislau, 1883-1967 ; SILVESTRE , João, co-aut - O mundo das pequenas coisas.... Lisboa : J. Rodrigues, 1927. 155, [1] p ; 20 cm. A segunda parte do livro contém versos de João Silvestre com o título "Sete-estrêlo"