João Bigotte Chorão | O Reino Dividido – Inédito PDF Versão para impressão

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Em vez de fatigar os olhos na leitura, descanso-os na paisagem. Ao atravessar a Beira Interior, ao contemplar a Estrela, admiro as formas informes (se assim posso dizer) esculpidas pelo Tempo, precursor de Archipenko. Lá de vez em quando é que surge alguma coisa que lembra o focinho de um animal ou o perfil de um homem. Paisagem de princípio ou de fim do mundo, ela fará mais a felicidade de um paleontólogo do que a felicidade de um poeta.

Depois de algumas horas na minha «pátria pequena», dou comigo a pensar se fui eu ou se foi a Guarda que mudou. Creio que mudámos ambos – mudou a cidade na sua fisionomia (e ainda nos podemos dar por satisfeitos se uma Câmara zelosa não mandou caiar a Sé, feia de tão escura...) e na sua paisagem humana (que sinto estrangeira: a gente que a minha infância conheceu, será mister procurá-la no cemitério ou longe daqui), e mudei eu, que vejo tudo com outros olhos, naturalmente mais cansados.

A catedral é à imagem e semelhança da cidade e da serra: severa e pesada. Mas há uma tal dignidade nesta pedra que lhe perdoamos a ausência de graça. Como pretender ágil o granito? Lá do alto, respirando o ar fino da serra, dou-me a esta paisagem viril. Nas terras e nos homens o que se aprecia é o carácter. E carácter é o que não falta aqui. Olhando até onde a vista alcança, eu compreendo que a minha vida tinha de ser fatalmente disputada por duas forças contraditórias. Descubro nestas montanhas a imagem da minha vida, toda feita de ascensões e de quedas. Os largos horizontes oferecidos a meus na infância, a vizinhança da Espanha, tudo me marcou com um signo indelével. Por isso eu havia de abrir-me à Europa, chamado pela distância, batido pelos grandes ventos do espírito...

 

 


 

JOÃO BIGOTTE CHORÃO - O Reino Dividido – Inédito in Terras da Beira na literatura portuguesa / seleção de textos [de] António Manuel Couto Viana; fotografias [de] Maurício Abreu. - Lisboa : Inapa, D. L. 1991