Monarquia Lusitana III de Frei António Brandão PDF Versão para impressão

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Está fundada esta cidade em uma parte do monte Hermínio, que vulgarmente se diz Serra da Estrela, não no mais alto, mas em um espaço de terra chã, que cai da parte oriental e compreende a cidade e algumas partes que a cercam. Da parte do ocidente de divide do mais alto do monte com uma quebrada feita pelo Rio Mondego, que por ali passa e tem perto seu princípio. E por causa deste vale fica o assento da cidade superior a todas as terras circunvizinhas, as quais das outras três partes estão mais inferiores e fazem a subida um pouco dificultosa.

A cidade é toda murada com cerca de cantaria e torres fortes. No mais alto, tem um castelo defensável por sítio e fortaleza. A Sé é dos edifícios principais do reino, assim na fábrica como em rendas. A terra sadia em todo o tempo e no Verão mimosa de frutas e outras coisas que as aldeias lhe comunicam. Alguns inversos são ásperos em demasia por causa da neve, que é contínua naqueles montes.
Alguma gente nobre tem quintas para onde se passa e os bispos se mudam neste tempo de ordinário a Castelo Branco, vila nobre de sua diocese, aonde têm seus Paços. Foi esta cidade, no tempo das guerras de Castela, fronteira de muita importância. Na paz, ficou com a jurisdição e superioridade daquela comarca.
Entre as obras magníficas de el-rei D. Sancho, foi uma delas esta fundação da Guarda e como tal faz menção arcebispo D. Rodrigo. Na Torre do Tombo se conserva o foral que o próprio rei lhe deu depois de a haver fundado; é sua data a vinte e seis de Novembro do ano de 1199, o próprio em que fez doação da Idanha, como já vimos. Faz el-rei neste foral grandes favores aos moradores da Guarda: quer que os cavaleiros dela tenham lugar de infanções em todo o seu reino e que os soldados de pé valham em juízo como se foram cavaleiros de mercê, os quais antigamente se diziam cavaleiros vilãos, por não procederem de família de cavaleiros; porque os que assim procediam chamavam cavaleiros por natureza, como já vimos em outro lugar. Miles de Agoarda stet pro Infancione de toto nostro Regno in jndicio, et juramento, et pedes de Agoarda stet pro milite villano. Boa confirmação também de valer tanto antigamente o nome de miles, que hoje significa soldado, como o de eques, que é cavaleiro, como já deixo advertido.

 

 


 

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