| José Augusto de Castro - "Na Guarda" |
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Chegou o dia de regresso ao meu lar e ás minhas ocupações oficiais, na Guarda, cidade onde o Destino me obrigou a fixar residência há uns vinte e tantos anos. Foi cruel esse Destino. Eu nascera pobre e pobre entrara na mocidade, mas bastante rico de qualidades para o trabalho, o esforço e o sacrifício. Olhei sereno a estrada que se estendia em frente e parti. Não sei como, qualquer força misteriosa punha no meu ser vibrações impulsivas, dava asas ao meu pensamento para vôos altos, e eu via ao longe, ao fim da estrada imensa, sob horizontes de azul puríssimo, a miragem da felicidade. Ah, mas a felicidade então em bem pouco se resumia! Ao sairmos da infância para a mocidade cobre-nos um sol de primavera e tudo o que nos rodeia desprende eflúvios acariciadores. Não há palor nos luares nem convulsões nas estrelas. Pelas noites fora, apenas ouvimos frémitos sagrados que descem e sobem; vagas que rolam e se desmancham em espumas brancas sobre as praias; lírios e rosas entreabrindo, estremecendo; beijos que ondulam pelas almas em sonho – desconhecedoras ainda dos egoismos que ferem, do amargor das lágrimas que só mais tarde começam a subir ao coração E para a miragem caminhei, as mãos estendidas e os lábios em prece, crente no para vencer a distância... - como se cada um de nós não entrasse na vida com o rumo já marcado pelo Destino. Assim, quando julgava mais de meio caminho andado, a miragem risonha a aproximar-se numa divina ilusão de encantamento, senti-me envolvido em sombra, como se entrasse num subterrâneo. Olhos sem horizonte, cerraram-se em pesadelo e acordei na Guarda, noite alta que se prolongou anos e anos. Felizmente, anos passados, ainda vi amanhecer. Não amanhecer de primavera, mas de outono, - campos tristes, árvores sem folhas e sem gorgeios de ninho, beirais e ceo sem asas de andorinhas, o vento começando os seus renos elegíacos sobre os lares humildes. E digo felizmente porque a crueldade do Destino não impediu que me envolvesse a bondade de amigos de nobilíssimo coração, a começar pelo Dr. Lopo de Carvalho, o ilustre médico. Especialista da tuberculose, que tomou a peito arrancar-lhe da garra dilaceradora da doença temerosa. O Dr. Lopo de Carvalho era esse admirado cientista do nosso País e do estrangeiro, nome que ficou imortalizado e seu filho o Dr. Fausto Lopo de Carvalho está continuando, que da sua clínica um sacerdócio e da Guarda um Templo, - onde tem vindo ajoelhar milhares de tuberculosos em anseios de esperança, em lucilações de fé porque vejam desaparecer do seu caminho o sinal vermelho e triste do próprio sangue. O que foi o Dr. Lopo de Carvalho afirma-o o Sanatório Sousa Martins que ele fez construir, o monumento que lhe foi erguido numa esplanada da cidade, mais ainda o rumor das bençoes de milhares de agradecidos que jamais deixará de ouvir-se, (...) Ao lado do Dr. Lopo de Carvalho estava o Dr. Amândio Paul. Alma gémea, ardendo na mesma labareda de beleza moral e afetiva, envolveu-se também na mesma estima. Arrebatado aquele pela morte, este aí continua a ser para mim duma gentileza e dedicação de que só os espíritos escolhidos são capazes. O Dr. Amândio Paul é dos amigos que vivem no mais íntimo do meu coração há muitos anos, desde que a minha alma se prostrou de joelhos diante dele na anciã dolorosa de que salvasse da morte o meu primeiro filho, pequenino. E salvou-o. (...)
{endnote} José Augusto de Castro - Extrato de Labaredas in Guarda livros : textos e contextos / selecção e org. António José Dias de Almeida. - Guarda : Câmara Municipal da Guarda, 2004.{/endnote} |



