| Augusto Gil | O que o fogo poupou dum poemeto queimado II |
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Na mais alta cidade portuguesa Nasceu, para abrandar meu fundo mal, A mais santa a mais cheia de pureza Das moças dêste lindo Portugal.
Os seus olhos são tristes e sugerem Todo um passado de resignação São tristes, certamente por não verem O rosto incomparável onde estão ...
A voz é clara como as açucenas E dolorida, cândida, modesta. É dolorida, porque sente penas De abandonar a sua boca honesta...
O riso, que é em nótulas delidas, Vibra em seus lábios tão rapidamente Como um beijo de amor, às escondidas, Na curva duma estrada em que vem gente...
A mão dela, uma vez, poisou na minha; Pareceu-me ao sentir-lhe a comoção Que era o seu próprio coração que eu tinha A palpitar dentro da minha mão...
Se passa, às tardes, e detrás, caindo, O sol abrasa os longes da paisagem, A sombra que em sua frente vai seguindo É a luz – a abrir-se,p'ra lhe dar passagem...
Se passa, acalma os corações magoados Como outrora as parábolas de Cristo Acalmavam a dor aos desgraçados. Acalma os corações?! Não... não é isto.
As estrofes de amor, a quem o sinta, Dão um trabalho cheio de tormento ; O tenebroso líquido da tinta Apaga, rouba a côr ao sentimento
Quis celebrar de um modo original As finas graças do seu corpo. Errei-as. Oh forma!...és com um fato de hospital Palavras! sois a névoa das ideas...
{endnote} Augusto Gil - Extrato de Luar de Janeiro in Guarda livros : textos e contextos / seleção e org. António José Dias de Almeida. - Guarda : Câmara Municipal da Guarda, 2004.{/endnote} |



