Eça de Queirós III | Extrato de Tragédia da Rua das Flores PDF Versão para impressão

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E ainda desconfiado, resolvido a não se deixar embarrilar, disse um pouco bruscamente:

-É por ser franco que vou direito ao que me traz aqui. Decerto sabe o que é.

Ela teve um gesto muito doce, [um] risinho de dúvida, de hesitação:

-Naturalmente, vem-me falar de Vítor.

- Venho falar-lhe de Vítor.

Houve uma pausa, e Genoveva detalhava as palavras com uma gravidade digna:

- Vítor tem falado tantas vezes do tio Timóteo, como ele lhe chama, e sempre com tanto afecto, com tanto entusiasmo, que eu sinto-me pronta a escutá-lo com dedicação,- e sublinhou a palavra. Sei que ele que lhe deve tudo, que o estremece...

-Sim, interrompeu Timóteo, a não ser um monstro, o rapaz deve ter-me amizade.

- Adora-o! Disse ela, com força, com força, com um movimento no sofá, que a aproximou de Timóteo.

- Ah, sereia! Pensou ele, -e depois de esfregar o joelho, reflectidamente:

- Portanto não deve estranhar que eu venha aqui defender os interesses dele...

Pareceu muito surpreendida ao ouvir falar de interesses.

- Sim, porque enfim – e teve como um movimento de todo o corpo, que indicava uma decisão - que ganha ele com estas relações?

Genoveva torcia entre os dedos as rendas do lenço, e baixando os olhos:

- O que se ganha em ter relações com a pessoa que se ama, - e com um sorriso adorável, a felicidade, creio eu...

Timóteo encarou-a e disse, com a voz mais alta:

- Minha rica senhora, eu não sou um desses velhos tios de comédia, burguês, que se aterra quando um rapaz tem uma amante. Aos vinte anos, aos trinta, todos os homens têm amantes: é tão necessário como tomar banho. Vou mais longe: digo que é uma felicidade quando a amante é bonita, inteligente, prendada, senhoril, com uma bonita casa (e olhou em redor ), conversação (e saudou-a),e toilettes... Perfeitamente.

Eu seria o primeiro a aplaudir Vítor – se esta ligação não lhe trouxesse transtornos graves.

 

(...)

 

- Escute. Vou-lhe contar toda a minha vida , tenho essa confiança em si: vejo em si um homem de bem, um homem de coração, de inteligência, que me compreenderá... Nunca revelei estas coisas. Vítor não sabe nada. Julga-me, como todo o mundo, uma senhora da Ilha da Madeira, que fugiu com um inglês, e que, em Paris,- depois – se fez... - o que eles dizem, cocote!

E teve um riso amargo. – Uma aragem mais forte entrou, - e maquinalmente, Timóteo, que estava do lado da porta, fez o movimento de se retirar da corrente de ar.- Genoveva viu, e correu a fechar a janela: e correndo o fecho reviu, num relance, os vagos detalhes da história que ia contar. – Quando se voltou, Timóteo estava de pé: o andar dela tinha-o ferido, e uma vaga recordação condensava-se no espírito: os seus olhos devoravam-na.

-E então de onde é? perguntou, quase com dificuldade.

-Casei em Portugal. – Hesitou: - Mas, como se a confissão lhe rompesse, irresistivelmente, com um acento de vergonha: - Fugi a meu marido.

-De onde é, donde? Perguntou Timóteo; respirava com aflição, e a bengala tremia-lhe na mão extraordinariamente.

- Sou de Guarda, -disse ela.

Timóteo estacou imóvel, com os olhos dilatados: murmurou duas vezes: Santo nome de Deus! Santo nome de Deus!

- O que é, fez ela lívida.

- Seu marido? Quem era?

Ela respondeu ansiosamente, com as mãos sobre o peito toda inclinada para ele.

- Porquê? Meu marido? Chamava-se Pedro da Ega.

-Oh, maldita! Maldita! Maldita! Bradou Timóteo. E os seus braços erguidos tinham um tremor, o olhar alucinado, e com uma voz estrangulada, medonha:

- Mas esse homem é Vítor de Ega! É seu filho! Eu sou Timóteo da Ega.

 

 

 

{endnote} Eça de Queirós - Extrato de Tragédia da Rua das Flores in Guarda livros : textos e contextos / seleção e org. António José Dias de Almeida. - Guarda : Câmara Municipal da Guarda, 2004.{/endnote}