| Eça de Queirós II | Extrato de Tragédia da Rua das Flores |
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O sujeito roliço sorriu, e esfregando as mãos devagar: - Perfètamente bem. Pode o cavalheiro informar sobre...- Procurou rapidamente nos bolsos, tirou uma carteira, encavalou no nariz uma luneta de oiro, e leu:... sobre Pedro da Ega, da Guarda, casado, viúvo. Timóteo cravava nele olhos faiscantes. - Mas quem manda? Para quê? O sujeito roliço curvou-se, e com a mão sobre o peito: -Não estou autorizado... - Bem, então adeus amigo, rua! O indivíduo fitou o verniz dos sapatos, com as sobrancelhas muito erguidas, beiço inferior muito estendido; e murmurou: - Extramamente duro, extramamente duro... - Foi tomar o chapéu. - oiça lá, senhor francês, rompeu Timóteo, o sr. Pedro da Ega morreu, em Luanda. Se quer certidão de óbito, escreva para a freguesia de S.Jacinto. O indivíduo escrevinhava rapidamente na carteirinha, com júbilo. (...) - Aqui está como eu vim a desconfiar. Eu sabia que ela era portuguesa. De resto é fácil ver-se: tem um acento no francês dos diabos. Agora não tanto - mas tinha. Abria cada R e cada O! Desagradável, desagradável. Ora naturalmente – eu não sou metediço, o amigo conhece-me, mas tive curiosidade de saber, é natural, não é verdade? Tive curiosidade de saber donde era, se de Lisboa, se da Província. Disse-me que era da Ilha da Madeira. Que família? Gomes. Gomes! disse eu comigo: não me cheira a Ilha da Madeira, não me cheirava. Eu tenho faro.- E mostrava-o farejando por cima da mesa.- Disse comigo: nem tu és da Madeira, nem Gomes! Mas enfim, que diabo, jantava-se muito bem em casa dela, era muito amável. Que me importava a mim quem ela era! Dos portugueses em Paris, ninguém a conhecia. De resto, ela não é nova, tem 39 ou 40 anos: mas muito bem conservada! (...) Madame de Molineux sabia perfeitamente o que se dizia do brasileiro: mas recebia-o: que lhe importava a ela, não é verdade? Era milionário, jogava e perdia: que tivesse assassinado, ou que não tivesse assassinado – essas coisas em Paris não influem. Tinha dinheiro para luxo... Vem cá, meu ai Jesus! Um dia, num jantar, o Couceiro, de repente, põe-se a dizer, em português, Madame de Molineux - «a sr.ª nunca esteve na Guarda?»: pois, menino, eu estava a olhar para ela e vi-a positivamente... A porta abriu-se, - e o criado entrou dizendo que o sr. Barão de Markstein perguntava se não seria indiscreto vir tomar com eles o seu café. - Não, certamente, disse Vítor contrariado, olhando para Meirinho. Que sim, certamente. -É muito amável, é muito amável, - disse logo Meirinho, radioso. - Mas continue, Meirinho: ia a dizer que a viu... - Que a vi, quem? - A Madame de Molineux, quando o brasileiro lhe disse... Mas a porta tornou-se a abrir – e o barão entrou, tirando e pondo o seu fez: pediu logo que lhe jurassem que não era importuno: mas sentia-se em casa tão só : e conhecendo a cordialidade dos Portugueses, de que tinha tantas provas, julgara... Mas realmente, não era importuno, não vinha interromper nenhuma conversação...
{endnote} Eça de Queirós - Extrato de Tragédia da Rua das Flores in Guarda livros : textos e contextos / seleção e org. António José Dias de Almeida. - Guarda : Câmara Municipal da Guarda, 2004.{/endnote} |



