Eça de Queirós | Extrato de Tragédia da Rua das Flores PDF Versão para impressão

Timóteo ficou cachimbando, com um ar acabrunhado: e os seus olhos erguiam-se, às vezes, para a parede onde estava o retrato do pai de Vítor a óleo: era uma face pálida e comprida, com um longo bigode preto caído aos cantos da boca, o cabelo comprido, a testa branca, alta gravata de cetim perto.

Fora tirado em 46 ou 47, nos anos das desordens civis, e do seu casamento infeliz. Que espanto para Timóteo, quando recebeu em Angola a notícia de que o mano Pedro tinha casado com a Joaquina, com a Joaquina dos Melros. Que burro! Exclamou, amarrotando a carta com uma punhada na mesa! Timóteo tinha uma alta estima por seu irmão: era tão inteligente, tão corajoso, tão cavalheiro! E ia casar-se com a filha da Maria Silvéria! A Joaquina – a quem ele, ele Timóteo, dissera: «Em a menina querendo vem comigo para o Porto, e tem casa, e duas meias de mesada». É verdade que lhe atirara um balde de água – mas não havia gente na Guarda, o Telmo Santeiro, entre outros, que tinham visto um alferes de cavalaria amarinhar-lhe a janela, por uma noite de neve! E casava seu irmão com ela! Grandíssimo burro: Um bonito rapaz, que escrevera aquele belo poemeto, - A Noite do Cemitério! E daí a um ano e meio, uma manhã que ele almoçava a sua carne ensopada, a negra vem-lhe dizer: sinhô Doutô, é um sinhô. O sinhô era Pedro, seu irmão Pedro, vestido de luto! --A Joaquina morreu? Exclamou ele.- Fugiu – disse Pedro, sem uma alteração na voz. Dois negros entraram com os baús de bordo. Pedro tomou uma grande chávena de café. E contou a sua história: depois de casado viera para Lisboa: na Guarda, sua mulher seria sempre a filha da Maria Silvéria: em Lisboa, estavam como numa cidade estrangeira.

Viveram na Rua do Crucifixo, e defronte morava um rapazola espanhol, emigrado. Uma manhã, dois meses depois do nascimento do pequeno, antes mesmo do seu baptizado, Pedro partira para a caça, à outra banda, só – e quando voltou, encontrou um bilhete, na letra garrafal da Joaquina. «Adeus, esquece-me, porque o meu destino leva-me para longe.»

(...)

Enfim! De Madrid escrevi a alguns amigos da Guarda, ao Magalhães, aos Vaz, que partia para os Pirenéus com minha mulher, que estava doente, coitada...E fui para os Pirenéus: pescava trutas à linha, no Gave: é divertido. Por fim, tornei a escrever a [ao] Magalhães, etc. que minha mulher morrera.

 

 

{endnote} Eça de Queirós - Extrato de Tragédia da Rua das Flores in Guarda livros : textos e contextos / seleção e org. António José Dias de Almeida. - Guarda : Câmara Municipal da Guarda, 2004.{/endnote}