| Pavana para um café defunto |
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Qual desditada Inês, o Café Mondego foi por nada e de vez, posto em sossego…
Em branco, deram de si as imperiais, mais o bagaço branco e outras drogas tais!!!
Em vez de bicas, saem cheques e outras dicas… Em vez do copo de três de tinto proletário… - “Saia uma letra p`ra protesto p`ró natário…”
Ai Café!!! Café Mondego!!!
Que fada nos fadou?! Que feia bruxa teceu em teia esse destino que a ambos nos tramou???!!! Mondego dos doutores com o café e o canudo a meio, Mondego dos senhores Vazios de alma, mas de papo cheio…
Mondego das elegantes do caroço a alternar co`as do Poço com pulhas e tratantes…
Mondego das fortunas inventadas, dos milhões… Mondego das vergonhas sussurradas, dos calotes, dos calões…
Mondego dos arrotos a postas de pescada!!! Mondego da boatada… onde tudo era afinal igual…a nada!!!
Mondego dos “crânios”, dos intelectuais de fama dos ”sabões” Mondego dos da mama… Mondego das tertúlias dos exercícios mentais sem conclusões…
Ai Café!!! Café Mondego!!! Mondego das laranjadas do Couto, da Sepol… dos pirolitos. Mondego das gargalhadas, cheio de sol e de gritos!!!
Mondego das torradas, das questões e das porradas… Mondego das discussões! Mondego do amendoim e tremoço a dez tostões!!!
Mondego da bebedeira, dos sonhos, da pasmaceira dos sonhadores, dos profetas… Mondego dos poetas sem versos, a poetar asneira…
Ai Café!!! Café Mondego!!!
Mondego de futebol, do Eusébio, do Travassos… Mondego onde uma vez… ouvi não sei que passos!!!
Mondego das procissões a passar-te ao lado, com hereges dentro, a praguejar pecado… Ai Café!!! Café Mondego!!!
Mondego, meu democrata. onde à custa de lata – que estranheza! - sentavam o Salazar e o Delgado à mesma mesa… …onde ao balcão, qual iguais, se encostavam Deus, o Demo… e já não sei quem mais!!!
Ai Café!!! Café Mondego!!!
Mondego onde o meu Abril De Liberdade!!! E onde ele depois se me fechou e revelou em pura falsidade…
Ai Café!!! Café Mondego!!!
Mondego revolucionário a conspirar de ressaca… Mondego que em teu diário virastes tanta casaca…
Ai Café!!! Café Mondego!!! Mondego dos olhares furtivos e furtados, Mondego dos amores calados, dos amores primeiros, das paixões!!! Mondego dos amores brejeiros, esfumados em pueris frustrações!!!
Mondego dos encontros no papel marcados para amanhã Mondego seco de uma esperança vã!!!
Ai Café!!! Café mondego!!!
Mondego dos jornais a ler, da graxa… Mondego das gerações a haver que ninguém acha!!!
Mondego das ilusões que já não há quem a preze! Mondego do Totobola, Onde ninguém fez um treze… Mondego do bilhar ao perde-paga e bicha a ver, à espera de vaga. Mondego dos dados no mármore, a rolar. Mondego do xadrez, do Mate a dar… Ai Café!!! Café mondego!!!
Mondego dos cauteleiros de mesa em mesa a oferecer a sorte… Mondego dos da tristeza, daqueles a quem já levou a morte… Mondego dos mendigos. Mondego onde um dia dei conta de ter perdido… não sei quantos Amigos…
mondego do Amândio! Mondego do Pepe que já não há quem o tope. Mondego do Nelson a debitar filosofia ao Poppe!!!
Mondego do Adelino, e do Man´el Cardoso a puxar ao fino… Mondego das grandes reportagens ao Pinheiro… miragens que o tempo desprezou e já esqueceu… Mondego das crónicas que “à vol d´oiseau” O J´aquim Craveiro um dia lá escreveu!!!
Ai Café!!! Café Mondego!!!
Mondego, que te fizeram???!!! Que te fizeram ao deixar-te assim???!!!
Contorno a tua esquina, e pela noite calma, ´inda menina, não vislumbro ninguém a esperar por mim…
{endnote} J. Osório de Andrade - Extrato de Separata de Praça Velha: Revista Cultural in Guarda livros : textos e contextos / seleção e org. António José Dias de Almeida. - Guarda : Câmara Municipal da Guarda, 2004.{/endnote} |



