Wenceslau de Moraes PDF Versão para impressão

(...) Bem. Livre-se o meu amigo, felizmente, da guerra, e estou certo que usará de toda a prudencia para se livrar também dos perigos da situação interna do paiz. Dá-me vontade de lhe dar um conselho: - reforme-se, fuja com a sua Chica para a Guarda, vá viver tranquillamente no seio da sua família! ...- Mas bem sei que o conselho não é aproveitável, que varias razões imperam para que não possa abandonar a sua carreira, onde bem possivelmente encontrará a felicidade que tanto merece.

Esteve o meu caro uns 5 mezes na Guarda, deliciosos pela relativa tranquilidade: e a Chica gostou muito... e "viu a neve"!... Agora voltou á vida de Lisboa e á vida do quartel; peço-lhe que não se fatigue muito e se arrisque ainda menos. Passeie com a Chica sempre que puder, o que fará bem a ambos. Eu nada lhe conto de mim, nem nada tenho que contar-lhe. Deixei de ter historia. Vivo do passado, isto é, de saudades. O presente nada vale e o futuro... é o que se sabe.

Desculpe esta enfadonha carta. Consta-me que em Portugal abrem de quando em quando as cartas, como medida de ordem publica. N'esta, se a abrirem, nada se encontrará, penso, que possa incommoda-lo. É a opinião única e exclusiva de um sujeito que vive em quasi miseria, mas que em compensação pode fallar como quizer, pois nada depende de monarchicos, nem de republicanos, nem de sicialistas, nem de pessoa alguma, pois come o arroz das suas magras economias e mais nada.

Um abraço à Chica e outro ao meu caro, do seu cunhado e amigo.

W. de Moraes

 

 

 

{endnote} Wenceslau de Moraes - Extracto de Cartas íntimas de Wenceslau de Moraes in Guarda livros : textos e contextos / selecção e org. António José Dias de Almeida. - Guarda : Câmara Municipal da Guarda, 2004.{/endnote}